Tolerância, parte II

da Série: “Paradigmas da Contemporaneidade” aula 087.

por Carlos Alberto Carvalho Pires

1-Introdução

Todos dizem: “eu sou tolerante”. As pessoas afirmam, com ênfase e entusiasmo, que aceitam as diferenças aparentes entre todos que convivem no meio social. Ser tolerante está na “ordem do dia” de todas as cartilhas que definem quais são os predicativos desejáveis em uma pessoa de bem. O indivíduo dito tolerante agrega a si um viés positivo, digno e ético.

Muitos vão além, dizendo que lutam por um mundo cada vez mais tolerante, no qual todos possam gozar a mais fraternal paz, usufruindo uma felicidade jamais vista na história da civilização.

Não há espaço para opiniões diversas do discurso tolerante: os intolerantes estão absolutamente fora do contexto justo , são párias das comunidades.

Será que essa lógica realmente funciona assim?

Neste trabalho propomos uma breve reflexão sobre o que significa ser tolerante. Ao final será possível responder a uma questão-chave sobre este tema fascinante e inquietante, que perpassa as eras desde o início dos tempos: você realmente é uma pessoa tolerante?

2-Conceito

Ser tolerante, em uma definição elementar, significa aceitar as diferenças presentes naqueles com quem convivemos. É ser capaz de viver harmonicamente com pessoas que nos causam, de algum modo, um estranhamento.

A tolerância se apresenta em situações distintas que ocorrem no dia a dia, em uma comunidade qualquer. Todos se submetem, voluntária ou compulsoriamente, a uma série de encontros e desencontros. Nestes momentos os protagonistas experimentam uma série de estímulos intersubjetivos, que em certos casos fornecem subsídios para diversas reações que podem ser classificadas como tolerantes ou intolerantes.

A forma de tolerância mais estudada na Filosofia é a situação que envolve pessoas que divergem nas questões da fé – falamos aqui, portanto, da tolerância religiosa. Outras situações nas quais este fenômeno ganha corpo são aquelas em que há diferenças quanto a aspectos culturais, políticos, ideológicos, econômicos, intelectuais, de idade, estéticos, relacionados a opção sexual e raciais (sobre o Racismo, recomendo assistir ao video “O Racismo”, neste Blog”).

O tolerante aceita e convive em justo equilíbrio emocional com pensamentos, opiniões, imagens, estéticas, discursos, posturas e todas as demais manifestações de linguagem emanadas pelas outras individualidades.

3-A tolerância religiosa

Segundo Voltaire, a tolerância era a marca dos povos da Antiguidade. Na Grécia clássica, por exemplo, era comum os guerreiros rezarem aos deuses dos inimigos, antes das batalhas. Roma nunca proibiu os cultos em seus territórios, e imensos templos a divindades egípcias foram erguidos na cidade eterna. As sinagogas prosperavam na península itálica e em toda Europa. Os persas/medos deixavam os povos por eles dominados exercerem seus rituais sem qualquer constrangimento. Mas, com a ascensão das colunas de Pedro, a intolerância passou a ser o mantra a ser repetido e exercido na plenitude contra os chamados hereges. A missão de combater os que tinham dogmas de fé diferentes eclodiu com força em meados do século 4º d.C. , se exacerbou com as Cruzadas e chegou ao esgotamento no final da Idade Média. As guerras religiosas na Europa inundaram de sangue cristão grande parte do continente. Esta situação estimulou a eclosão de obras filosóficas fascinantes no século das luzes, como a “Carta acerca da Tolerância” lançada em 1689, de John Locke (1632-1704) e o “Tratado sobre a Tolerância”, do ano de 1763, de Voltaire (1694-1778).

No século XXI assistimos a uma reapresentação deste teatro de horrores em alguns pontos distintos do mundo, notadamente no Oriente Médio e na África – entidades religiosas fundamentalistas utilizam técnicas de terror e medo para expandir seu campo de atuação, evocando como bandeira a existência de uma eventual nova guerreligioa rsa que estaria em curso.

4-Virtude moral

A tolerância é uma virtude moral. Isto significa que, ao contrário dos afetos, fazemos a opção consciente e racional se queremos ou não ser tolerantes. Os afetos, como bem sabemos, são sentimentos contingentes agregados ao fato de sermos humanos – algo como fazem parte de “nossa natureza”. Eles nos atingem de maneira inevitável, inconsciente e incontrolável. São também chamados de instintos, impulsos, pulsões, tensões, pathos, vontades, desejos, e por inúmeros outros nomes, elencados por várias escolas de pensamento, sejam filosóficas, psicológicas ou psicanalíticas. O que importa, aqui, é destacar que ninguém decide se quer ser estimulado pelo impulso A ou B, mas pode decidir se quer exercer uma virtude moral, seja ela qual for. Por exemplo, você opta por ser caridoso, fiel ou esperançoso – tratamos aqui de três relevantes virtudes morais. Mas você não decide quem vai amar ou o que vai temer. O amor e o medo são os mais arquetípicos afetos da alma humana. Se você é tolerante, fez uma opção intelectiva, concretizada somente após a elaboração de uma série de exercícios mentais, abstrativos e reflexivos que o levaram a definir, racional e gratuitamente, optar por esta postura amistosa em sociedade.

5-A relação Eu-Tu

Uma característica importante em relação à tolerância é que ela nunca se manifesta individualmente. Ela não se positiva em um indivíduo isolado dos outros. Quem é tolerante, é tolerante em relação a alguém, ao outro, a uma pessoa próxima. A relação “Eu-Tu”, termo criado por Buber, deve ser uma realidade tangível. Não existe tolerância em relação a si mesmo, na solidão ou na relação “Eu-Eu”. É fundamental haver uma intersubjetividade. Ser tolerante requer a presença de outro, e que este outro ente se manifeste, ou seja, que emita uma mensagem que seja captada pelos órgãos sensoriais de um receptor. Esta mensagem sempre carrega um conteúdo estético, discursivo, sonoro, de pensamento, de movimento ou relativo a uma ação efetiva, que representa um significado assimilável para quem capta este estímulo .

6-O desconforto

As mensagens emanadas pelo sujeito a ser tolerado causam uma reação, uma modificação e até mesmo uma transformação no status do receptor. Esta alteração tem que gerar um desconforto no indivíduo tolerante. O substantivo tolerância vem do latim “tolerare”, que significa suportar, sustentar ou aguentar uma realidade que se apresenta a um indivíduo. Isto porque um dos pré requisitos para a manifestação da tolerância, na prática, é a absoluta necessidade do sujeito sentir, como um poderoso afeto humano, uma dor terrível na alma, um estresse, uma angústia, uma tristeza, até mesmo um certo ódio daquele que se apresenta como diferente. Sartre chamaria este sentimento de náusea.

A tolerância, portanto, não existe na indiferença ou na concordância de opiniões, de pensamentos ou de atitudes. A discordância é essencial. E dessa discordância decorre este incômodo que motiva a pessoa a combater ou fugir desta agonia. A atitude de buscar o afastamento do inconveniente é chamada de dissonância cognitiva, pela psicologia, ou de recalque pela psicanálise – o ser humano obviamente não aprecia um momento em que sofre uma dilaceração em sua paz existencial. O coerente seria buscar meios de extinguir este malefício de sua realidade.

7-A resistência à dor.

O tolerante sente esta desgraça, este mal estar, este desconforto gerado pela diferença captada pelos seus órgãos sensoriais, mas resiste a este sofrimento, aceita essa condição sem manifestar qualquer gesto de desagravo, de censura, de crítica, de escape ou de agressão. Esta é definição essencial da tolerância. O tolerante não exerce a mencionada dissociação cognitiva ou a fuga/recalque. Não abandona a situação. Suporta conviver com o desgosto, demonstrando uma postura de harmonia, de tranquilidade e de aceitação plena desta situação que traz a si uma profunda dor.

Não existe tolerância em relação a situações que nos trazem felicidade. Ninguém é tolerante com aquilo que o alegra. Não se fala em tolerância quando vivenciamos instantes em que impera a comunhão de corpos e alma. A tolerância só tem sentido entre os desiguais e com a eclosão do sofrimento decorrente das aparentes incongruências entre os pares.

8-Pragmatismo

A tolerância não existe quando o sujeito tolerante é subordinado, de alguma forma, ao tolerado. Em outras palavras, o tolerante não pode estar em um nivel inferior, em uma escala hierárquica qualquer. Um subalterno vai se mostrar “tolerante” por pragmatismo ou por medo. Por exemplo, você não é tolerante com seu chefe ou com seu professor em sala de aula. Você apenas está reconhecendo que, via de regra, é salutar concordar com quem manda. Mesmo se o “cacique” for um narcisista, egocêntrico e cheio de manias o membro da plebe deve, se não quiser sofrer robustos prejuizos, se mimetizar atrás da máscara de manso e pacífico – e muitas vezes, por incrível que pareça, o mestre vai realmente achar que tem a “tolerância” ou a aceitação feliz dos vassalos.

Outra modalidade de encontro onde não há espaço para a tolerância é aquele em que há um interesse em pauta. Se o camarada tolerante vai ganhar algo, terá benefícios, gozará algum privilégio adotando uma postura pacífica, não está sendo tolerante na essência do termo. Está sendo um oportunista.

A tolerância, portanto, só se manifesta de forma legítima quando parte de um indivíduo que exerce alguma forma de poder sobre o tolerado e se não há algum interesse sendo negociado por baixo do véu tênue da aparente virtude manifestada.

9-Tolerância Ativa & Passiva

Se apenas ficamos inertes perante um comportamento que não nos agrada, estamos exercendo a tolerância inativa. Alguns autores chamam esta postura de tolerância cética. Mas, se estimulamos as diferenças, se valorizamos aquilo que nos torna desiguais, manifestando claramente nossa aprovação pelos sinais emanados pelo outro e desejamos legitimamente que ele continue e aprimore mais ainda tudo isso que a nós é díspare, estamos exercendo a tolerância ativa. O tolerante ativo luta pelo aprofundamento das diferenças. Ele deseja que não haja um nivelamento de pensamento, discursos e atitudes, trabalhando pela manutenção e pelo aperfeiçoamento do que lhe parece estranho, pois considera que cada instância diferente de nosso status possui um valor inestimável, que deve ser prestigiado.

10-Conclusão

A tolerância é uma virtude de primeira grandeza. Isto porque dela depende a efetivação de uma convivência pacífica entre os indivíduos pertencentes a uma coletividade.

As diferenças existem e sempre existirão: nossa sina é conviver eternamente com situações que nos desagradam, a priori, apenas por serem estranhas ao nosso modus vivendi.

A tolerância não apresenta um exercício fácil ou indolor. Ao contrário do discurso tolerante, que é banal, a prática tolerante requer um esforço especial para sua efetiva concretização.

A assimilação do que a nós parece estranho é, talvez, a única ferramenta eficaz que salvaguarda o salutar convívio entre os desiguais na jornada rumo à utopia da feliz vida em sociedade.

Isto posto, nos resta agora refletir novamente sobre a pergunta inicial: “você realmente é tolerante?”

Carlos Alberto Carvalho Pires

Para complementar/ ilustrar o tema, sugiro o vídeo abaixo, que versa sobre uma das mais

emblemáticas práticas de intolerância. Bom vídeo!

Referências:

Internet: www.maconariabrasil.wordpress.com

BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2012.

DERRIDA, J. Adeus a Emanuel Levinas. São Paulo: Perspectiva, 2008.

LOCKE, J. Carta sobre a tolerância. Rio de Janeiro: Edições 70, Lisboa. 2007.

SARTRE, J.P. A Náusea. Rio de Janeiro: Saraiva, 2011.

VOLTAIRE, F. Tratado sobre a tolerância. Coleção grandes Nnmes do pensamento, São Paulo: Editora Folha de SP, 2015.