O Legado de Sócrates

por C arlos Alberto Carvalho Pires

            No começo dos tempos o pensamento filosófico se apresentava um tanto amalgamado pela forma mais elementar de alívio das perturbações da alma, surgida desde que a mente humana questionou o universo pela primeira vez. O sentido do cosmos advindo da geometria divina, ou dos dogmas de fé, semeava os campos da criatividade humana quando passamos a perguntar os porquês de tudo que existe.

            Nos primórdios da agora denominada tradição filosófica, os primeiros registros formais floresceram provavelmente por volta do século IV a.C. na atual península indiana. Através de uma série de antigos registros religiosos denominados Vedas, os autores (desconhecidos) tratavam de questões cosmológicas, metafísicas e dogmáticas transcendentais – estava criada a Filosofia indiana ancestral, ou simplesmente o Hinduísmo, em conexão siamesa com as coisas celestiais (LAW, 2008, p.26-29).

            Em seguida, outras vertentes foram se manifestando, como o Budismo criado por Sidharta Gautama, por volta do século V a.C. Muitas contestavam exatamente os princípios estabelecidos pela vertente original, talvez por questão doutrinária essencial, talvez por estratégia de propaganda. 

            De qualquer modo, ainda era lugar-comum transformar qualquer enigma em um mistério, e assim “explicá-lo” de acordo com uma revelação qualquer, que satisfazia a inquietação das massas. Este modus operandi era eficiente, mas deixava rastros de desconfiança nas poucas mentes lógicas existentes, e isto desencadeou um intrigante fenômeno na Grécia antiga. Ali, em meio às praias paradisíacas e por entre estupendos e íngremes penhascos esculpidos por forças terríveis da natureza, surgia uma nova forma de se pensar.

            Por volta do século VI a.C. poderosas mentes criativas iniciaram um tortuoso processo de dissociação dos caminhos, bifurcando a trilha por onde até então seguiam felizes a proto-filosofia e as religiões elementares. Tales (Mileto, 585 a.C.) ficaria conhecido o primeiro filósofo e o fundador das ciências, pois suas idéias buscavam explicações na própria natureza para todos os fenômenos, deixando de lado as mitologias e o poder dos deuses gregos que até então comandavam o espetáculo da vida.

            Agora, fundamentos da Astronomia, da Engenharia e da Geometria ditavam as verdades e reconfortavam as almas dos gregos. Pitágoras (570 a 495 a.C.) inventou o método dedutivo e, apesar de ainda conservar um lado meio mágico ou misterioso, foi o responsável pela introdução das idéias matemáticas para compreensão de dilemas filosóficos e das ciências.  Depois muitos outros, como Heráclito (500 a.C.), Parmênides (515 a 445 a.C.), Zenão de Eléia (450 a.C.), e Demócrito (460 a 371 a.C.) (ROSSETTI, 2010) continuavam nesta lenta e inexorável jornada em busca de uma maneira de pensar que satisfizesse a ânsia por raciocínios lógicos, mas que ainda mantivesse uma certa aura de misticismo e de respeito às antigas tradições e crenças. Isto porque, de acordo com Vernant, “os ensinamentos da sabedoria, como as revelações dos mistérios, pretendem transformar o homem em um ser único, quase um deus”. (VERNANT, 1973, p.40-1, in PANSARELLI, 2010, p.10) e tal apelo era, naquela época, quase inquebrantável.

            Com Sócrates (469 a 399 a.C.) surgiu um rompimento quase completo nas duas escolas, a filosófica e a dos ditos sábios. Pautada pela lógica, intuição, dedução e pela nova abordagem socrática conhecida por dialética, a Filosofia agora caminhava apenas com suas próprias pernas, deixando ao largo as muletas das explicações místicas de tudo que envolve a existência do homem e do universo. Por isso, talvez, é sugerida a caracterização de Sócrates como anti-grego, ou como não grego e decadente, e até como fisicamente feio e palhaço, pois este representaria o fim de uma era, com sua postura questionadora e inovadora, que contribuiria, dentre outras coisas, como a amplificação do niilismo (NIETZSCHE, 1996). Sócrates quebrou a tradição dos helenos, dos antigos filósofos que também eram cosmólogos.

            Uma intrigante pergunta que podemos fazer a todos que interagem com a Filosofia contemporânea – ou pós-contemporânea – é se este processo iniciado por Sócrates foi vitorioso. Em caso positivo, os filósofos conseguiram manter um racional distanciamento das tradições mitológicas e dos mistérios dogmáticos na formulação de novos conceitos e pensamentos. Isto ocorre?

 REFERÊNCIAS 

LAW, S. Filosofia. São Paulo, Editora Zahar, 2008, p.24-29

NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo. São Paulo: Nova Cultural, 1996. In Planejamento Semanal da Aula do Curso de Filosofia Umesp em 02/03/2010, prof Wesley A M Dourado, p.03

ROSSETTI, R. Origem da Filosofia, In PANSARELLI, D. Logos e Práxis: leituras de filosofia antiga, ética e política. S B Campo: Umesp, 2010, p.11.

VERNANT, J. P. Mito e Pensamento entre os gregos. Tradução de H Sarian, São Paulo: Difel, Edusp, 1973. In PANSARELLI, D. Logos e Práxis: leituras de filosofia antiga, ética e política. ROSSETTI, R. Origem da Filosofia, S B Campo: Umesp, 2010, p.10.

Anúncios