A PROVA DA TERRA: Reflexões na Câmara

Carlos Alberto Carvalho Pires

“Uma geração vai e outra vem, mas a terra permanece”. Eclesiastes,1:4.

Diversas comunidades iniciáticas do passado proporcionavam aos candidatos que pretendiam adentrar aos seus mistérios uma experiência em que pudessem refletir, mesmo que brevemente, sobre a efemeridade da vida. A certeza da morte, a passagem inexorável do tempo e a possibilidade de aproveitar positivamente os momentos que ainda lhes restam eram alguns dos estímulos simbólicos que deveriam interagir com a mente ainda confusa dos profanos durante esta passagem. Nossa proposta, nesta breve peça de arquitetura, é interpretar o sentido de tal procedimento para os antigos mestres e o que representa para nós, em plena contemporaneidade, enquanto legítimos herdeiros desta tradição ancestral.

PRIMEIRA VIAGEM: EGITO

Segundo o historiador Heródoto (Grécia, 485-425 a.C.), a preocupação com a navegação pelos mares inquietantes das relações entre a vida e a morte vem desde os tempos dos antigos faraós. O escriba grego relata que, em três a quatro mil anos a.C., era comum servirem suntuosos banquetes aos nobres e aos amigos da realeza, por motivos diversos. Celebravam, por exemplo, as conquistas nas guerras ou a passagem dos solstícios e equinócios. O que chama a atenção é que ao final destas maratonas hedonistas uma cena aparentemente grotesca ocorria: diversos servos adentravam ao recinto carregando esqueletos e restos humanos acomodados em carrinhos de madeira. Todos paravam por alguns momentos. Meditavam serenamente. O silêncio imperava nos longos minutos de contemplação dos vestígios daqueles que, um dia, estavam exatamente naquelas mesas, felizes, estufados de vinho. Logo após a saída desses apetrechos fúnebres o povo retornava aos trabalhos de deglutição.

SEGUNDA VIAGEM: PÉRSIA

Nossa segunda epopéia se passa em 480 a.C., nas planícies gregas. No alto de uma colina Xerxes I (Pérsia, 518-465 a.C.), o poderoso rei do Império Aquemênida, admirava o movimento de seus exércitos após invadir e conquistar a Grécia. Eram mais de dois milhões de homens reorganizando suas tropas, em meio aos festejos referentes à poderosa vitória. O monarca, subitamente, começou a chorar copiosamente. Era um momento de júbilo e glória, não fazia parte do roteiro um lampejo de tristeza ou dor. Seu sobrinho, Altabano, que estava ao seu lado, perguntou o motivo das lágrimas. Xerxes explicou que não se conformava com o fato de que os soldados vitoriosos de agora estarão impiedosamente mortos dali a cem anos.

TERCEIRA VIAGEM: RÚSSIA

No romance “A morte de Ivan Ilitch” (1886), Liev Tolstói (Rússia, 1828-1910) nos apresenta o drama de um homem de meia idade com excelente imagem pública que está a beira da morte. Aos 45 anos de vida o juiz da suprema corte Ivan Ilitch sente uma forte dor no peito e, após consultas médicas, é dado o diagnóstico de morte certa em breve. Neste ponto o jurista percebe que toda sua vida fora desperdiçada. Ele vivera apenas para satisfazer os desejos dos outros. Sua vida fora em vão, concluiu com profundo pesar. Já não era apaixonado por sua esposa, seus filhos pareciam distantes e misteriosos, não tinha amigos exceto os interesseiros, os clientes e os aproveitadores. Ele só quis, por mais de quatro décadas, parecer relevante aos olhos da pomposa sociedade czarista. Tudo aquilo que motivara suas batalhas e conquistas –  sua carreira, seu casamento, suas falas, sua carruagem pomposa, a criação dos herdeiros, suas aquisições – pareciam agora, do alto de seus travesseiros de penas de peru da cama do hospital, apetrechos sem sentido erigidos para um estranho. Ivan, no fundo, não desejara nada disso. Seus reais valores e sua sensibilidade foram sacrificados em nome de uma vida pautada para impressionar outras pessoas que sempre cultivaram, e agora mais ainda, um profundo desprezo e uma sagaz indiferença em relação a ele.

A ARTE VANITAS

No período que vai do século XV ao XVII surgiu na Europa um costume que se mostrava bastante similar aos hábitos de várias culturas antigas que floresceram em localidades distintas na Terra, como na América pré-colombiana, no extremo asiático e na África. As pessoas adquiriram o gosto de ostentar, em suas casas, pequenas obras de arte como pinturas ou esculturas que tinham como motivo cenas envolvendo símbolos da morte. Imagens de ossos como crânios e tíbias cruzadas, de ampulhetas, de galos cantando ao amanhecer e de flores murchando ilustravam as paredes em volta das mesas de refeições e dos sofás nas salas de estar. Era a chamada “Arte Vanitas”, assim batizada em homenagem à passagem eclesiástica da Bíblia Cristã. Estas obras nas telas refletiam a passagem do tempo não apenas em relação aos prejuízos das pessoas em si: muitas passaram a retratar o declínio e a morte de civilizações. Ruínas de cidades e de monumentos passaram a protagonizar o centro das atenções e foram magnificamente ilustradas por artistas como o francês Hubert Robert e o britânico Joseph Gandy. Inúmeros poetas também se curvaram ante esta possibilidade de inspiração, tal como Percy Shelley, Edward Young, Robert Blair e Thomas Gray – poemas declamando a inevitável queda de tudo e de todos perante os ponteiros dos relógios estavam na ordem do dia das academias de letras. Na música clássica temos obras exuberantes que trilham por essa vereda, como a cantata BMV 106 de Joahan Sebastian  Bach (Alemanha, 1685-1750), que ordena “coloque sua casa em ordem, pois você morrerá; não permanecerá vivo, essa é a antiga lei; homem, você deve morrer…”. A arte Vanitas, portanto, traz a tona uma mensagem que não comporta dúvidas: ninguém escapa da guilhotina afiada da peneira da efemeridade. Alexandre, Xerxes, Ozimandias, Sócrates e todos os baluartes do mundo antigo se tornaram, hoje, apenas memórias – nós, após algumas poucas gerações, nem isso seremos, provavelmente.

A ARTE REAL

Alguns estudiosos interpretam o apego a arte Vanitas como um reflexo do caos e da ansiedade gerados pela morte da era medieval. As grandes transformações que acometeram o mundo ocidental/eurocêntrico na passagem do medievalismo para a modernidade afetaram o ethos de maneira irreversível. Uma nova forma de concepção da realidade estava em erupção, após o sucesso das grandes revoluções burguesas – notadamente as inglesas, a americana e a francesa – e da eclosão da revolução industrial, com sua conseqüente cultura de consumo em massa. A disseminação dos ideais iluministas, especialmente o Naturalismo e o Humanismo, o uso da razão como régua para explicar o que antes pertencia ao dossel dogmático da fé e a esperança nas ciências naturais que, achava-se na época, iriam possibilitar o predomínio do homem sobre as forças do universo, fizeram com que as imagens de crânios à moda das bandeiras piratas fossem despachadas para os quartinhos dos fundos das casas, ou mesmo para a lata de lixo. Não havia mais razão para ostentar figuras aparentemente tristes ou fúnebres em um mundo que prometia, a todos, a possibilidade de sucesso, de felicidade, de paz e de progresso. As civilizações, agora turbinadas pelo controle racional das forcas naturais, teriam longas vidas, quiçá eternas. Porém, em alguns círculos doutrinários específicos, essa arte se manteve em pé, com força e vigor.

VANITAS ENTRE COLS

As três viagens e a tradição Vanitas nos ajudam a decifrar um pouco mais sobre o significado, um tanto enigmático, de quem somos. Longe de trazerem efluxos de tristeza, de desolação, de desânimo ou de melancolia, como a mentalidade pós-industrial da sociedade de consumo sugeria aos novos modernos, essa cultura nos mostra elementos que reforçam a tríade da força, da beleza e do conhecimento sobre o sentido da vida. Ter a exata noção da finitude nos dá o poder de reorientar nossas prioridades em nossos parcos anos acima do solo. O tempo é curto, dizem os ponteiros do relógio. O momento de acordar, ao canto do galo, é agora. Esta efemeridade da existência ecoa na forma de uma terrível angústia. A dor e o sofrimento fazem parte do roteiro, não há como escapar. Mas, apesar disso, existe a possibilidade, transcendental ou imanente, de lutarmos pela redução do caos e da desolação. Este é o projeto alquímico de conquista de um mundo melhor. Não buscamos as utopias clássicas ou o erigir de “shangri-lás”. As imagens asfixiantemente lúgubres do que seremos faz com que repensemos sobre o que realmente importa, deixando de lado as futilidades, também chamadas de falhas específicas em nosso comportamento. “Carpe diem”, o famigerado dístico latino que refletia o desejo de aproveitar ao máximo os prazeres mundanos porque o império romano estava desmoronando, agora sofre uma releitura e um aperfeiçoamento. Os moinhos dos estratos da terra, turbinados pelos incensos da revalorização da vida acesos pela contemplação estética do abismo teleológico, ordenam que aproveitemos nosso tempo fugaz para tornar a realidade menos cruel e mais justa.

MEIA NOITE EM PONTO

A prova da terra é uma tradição forjada em tempos imemoriais, desde que a primeira fogueira queimou nos labirintos ancestrais dos cultos primordiais. Somente os iniciados na arte real compreendem que os movimentos sutis e impiedosos dos grãos de areia nas ampulhetas nos levam para mais longe.  Suas quedas rumo ao bojo inferior do apetrecho são o catalisador que desencadeia, nos planos mais profundos de nossa consciência, uma transformação. Essa metamorfose, que não permite retrocesso, pode ser considerada uma reação alquímica de transvaloração que refletirá, a posteriori, em cada atitude do novo homem, seja no mundo profano, seja no mundo sagrado.

por CARLOS ALBERTO CARVALHO PIRES

REFERÊNCIAS:

 

1-INTERNET: www.maconariabrasil.wordpress.com acesso em 10/04/2019.

2-ALLERMAN, J.C., “Vanitas, Memento Mori”, 1ªEd., Grin Publ., 2012.

3-BCH, J.S., “Bach Cantata Series: Cantatas 6”,Audio & Video, 2.007.

4-BÍBLIA, A.T., Eclesiastes, 1ª Ed., Paulus Editora, 2.017.

5-BOTTON, A., “Status Anxiety”, 1ªEd., Vintage, 2.005.

6-GLESP, “Ritual do Aprendiz Maçom”, Editora Glesp, 2.010.

7-HERÓDOTO,“Histórias”, 1ª Ed., Edições 70, 2.015.

8-MILLER. F.,“Ars Moriendi: Death, Christianity”,1ªEd.,Alphascript, 2.010.

9-TOLSTÓI, L., “A Morte de Ivan Ilitch”, 1ªEd.,Editora 34, 2.006.

 

Anúncios