QUE VINDES FAZER AQUI?

( Pergunta de Zoroastro a um Neófito)

1-Introdução

Quando os antigos persas se reuniam em em uma Sessão Ritualística do culto a Zoroastro, aquele que trabalhava do meio dia à meia noite, buscavam algo. Havia uma razão para que, semanalmente, todos largassem seus afazeres no senado, nas forjas de metal, nos campos de trigo ou nas fábricas de bigas de carvalho para passar quase duas horas realizando uma série de movimentos litúrgicos e formais em torno de um axis mundi, em cavernas ou em clareiras fechadas à plebe. O povo, se visse o que ali ocorria, nada compreenderia e manifestaria, certamente, escárnio e deboche com a fisiologia teatral e ornamentada que norteava as passagens cultuais. O objeto de seus trabalhos, repletos de alegorias e metáforas, para surpresa dos historiadores, não era bem conhecido por todos os zoroastristas – mesmo os mais antigos mestres tinham uma resposta adequada, quando perguntados pelos neófitos. Estas incertezas não eram exclusividades dos “sábios” das  terras de Ciro e Dario. Sócrates ( século V a.C.) uma vez questionou alguns membros dos Ritos de Elêusis sobre suas motivações em participar das atividades e se frustrou com as repostas, pois praticamente nenhum dos veneráveis sabia, com convicção, o que realmente significava participar de tais empreitas. Em relação aos zoroastristas, a confusão era pandêmica. Alguns achavam que os nobres cidadãos ali agrupados almejavam estreitar laços de amizade – o foco seria a fraternidade. Outros acreditavam que a filantropia era a finalidade da obra. Havia um grupo mais espiritualizado que creditava aos símbolos um viés de religião, pois estariam cultuando um deus genérico que lhes prometeria um futuro maravilhoso em outro mundo, em uma realidade transcendente pós-morte, mediante a realização de certas missões e tarefas na vida terrena. Outros gostavam de sair um pouco da rotina social e familiar, e apenas esta breve fuga já justificaria o investimento na entidade, em termos de tempo de dedicação. Teria também a ala dos apreciadores de mistérios, que realmente desejavam encontrar as explicações para os enigmas da natureza, e que viam em Zoroastro aquele arauto que traria o entendimento final sobre tudo. E também apareciam os que gostavam de posar como gurus de algum conhecimento importante perante o pequeno grupo social que com eles interage – melhor explicando: gostavam que os outros pensassem que eles detém um saber, uma aura de conhecimento muito relevante, um trânsito entre mundos mágicos que os outros, em geral, não tem e não compreendem. Por isso esta condição lhes conferiria uma valorização e até uma admiração, situação esta que se sobrevaloriza porque muitas vezes eram cidadãos sem qualquer notoriedade ou destaque na comunidade. Um Zé Mané se tornava “um mestre dos mistérios”, e assim sua vida monótona e sem graça transformava-se em algo um pouco mais palatável, aos olhos dos outros, que vislumbravam em suas carroças de bois adesivos com emblemas complicados e esquisitos, relativos às “seitas” secretas. Mas todos estavam redondamente – ou triangularmente – equivocados. Zoroastro, junto a poucos mestres-anciãos , era um dos poucos naquela época que conhecia exatamente qual era o sentido de seu culto. Ele desejava que todos tivessem uma “experiência do sagrado”. E apenas isso. Nada mais. Mas o que seria isso? O mestre responderia que um instante sagrado é aquele em que as mentes e corpos de todos captam, de forma sutil, uma vivência fora do mundo profano. Este approach ou salto seria a finalidade precípua de todo o cabedal de saberes e práticas zoroastristas. Isto pode parecer muito pouco, se não tivermos uma precisa noção do que representa esta possibilidade. Quando ele fala em tocar ou penetrar em uma perspectiva do sagrado se refere ao evento de sair do tempo, do espaço e da causalidade inerentes a todos os entes. Nesta condição a pessoa pode, metaforicamente, prescrutar o mundo do “ser”. Em linguagem filosófica ( desde Aristóteles até Heidegger) há uma cratera abismal entre estes dois conceitos. O ser é aquilo que é eterno, absoluto, imortal, atemporal e geral. O ente é o efêmero, o relativo, o mortal, o temporal e o específico. Vivemos, como bons homens que somos, no campo dos entes. Tudo que  para nós dá sentido à vida tem alguma referência no tempo (existe em dado momento), no espaço (existe em algum local ) e na causalidade (existe por uma causa qualquer). Esta é nossa trivialidade empírica do mundo. Para além disso, nada há. Não podemos imaginar objetos que iriam além destas tres categorias do conhecimento (de acordo com Kant), em termos de saberes filosóficos. Nossa vida se resume a esta perspectiva. O problema é que para vivermos uma vida justa, digna e voltada ao “bem”, ou seja, para manifestaremos posturas éticas – que geram bem estar de todos – ou com eudaimonia para os gregos, com alegria para Espinoza, com alta vontade de potência para Nietzsche, ou com amor e caridade ao próximo para os profetas, temos que compreender exatamente o que é a vida – como gozar uma boa vida se não sabemos o que é a vida? perguntava Sidartha no Nepal.  Mas, para isso, seria preciso observá-la de uma perspectiva fora ou além dela – não podemos ter noção exata de qualquer situação estando no centro das ebulições de eventos que forjam e alimentam o fenômeno a ser investigado (aqui há uma referência ao trabalho de Daniel Dennet, quando defende a heterofenomenologia). Então, temos que nos afastar da vida, manter uma distância estratégica deste evento, para assim poder ter uma noção de sua essência, de seus valores e de sua ética mais sublime, para em seguida trilhar pelos caminhos que a cartilha de Zoroastro indicava como sendo os mais corretos. Este afastamento não é possível, obviamente, utilizando-se o ferramentário das doutrinas profanas (a situação ideal seria uma visão da vida pós morte ou pré concepção, ou algo assim). Necessitar-se-á de novas estratégias de abordagem para que este universo ontológico – ou do “ser” – se apresente aos potenciais viajantes rumo ao Oriente persa. Entram nas trincheiras, portanto, as figuras de linguagem utilizadas pela arte, pela poesia , pelo imaginário folclórico e pelas narrativas heroicas apregoando as glórias de heróis míticos idolatrados em várias culturas antigas. Em resumo: aqueles iniciados que durante os trabalhos ritualísticos de Zoroastro tem uma eficaz impressão de que o espaço, o tempo e a causalidade se revertem em um mosaico de impressões e sensações circulares e caóticas, que geram uma certa confusão do real com o imaginário, compreenderam o sentido das reuniões. Isto se revela em termos mais práticos quando, por exemplo, a pessoa passou duas horas ali mas tem a impressão que foram alguns minutos. Ou se por breves segundos ficou incerto sobre onde exatamente está, se em uma gruta nos arredores de Ur ou em uma tenda no deserto de Aqaba. E também se não compreende a origem e a causa de tudo que ali ocorre. Se o discípulo consegue legitimamente transcender, durante os cultos, a patamares que vão além do mundo concreto, o objetivo foi estabelecido. A partir deste aporte ou penetração no sagrado, saindo do profano, é possível começar a busca pelo entendimento do real valor da vida e de cada momento que passamos ao lado de todos, de tudo e de nós mesmos. O culto de Zoroastro, portanto, é um culto à vida, ao mundo dos entes, dos mortais, dos efêmeros que somos nós mesmos. Os membros devem, assim, ter a exata noção valorativa de cada micro-segundo que passam sobre a terra. Cada instante não volta. Cada instante passa muito rapidamente. É como se a eternidade se concentrasse em cada partícula de temporalidade, no presente, pois o passado não é nada mais e o futuro é apenas uma projeção. Aqui fica claro que o foco principal dos instrumentos de trabalho destes tipos de cultos é a questão do tempo. Como nossa vida é muito breve, devemos uma atenção maior aos minutos de que dispomos. Independente de onde estamos, se em local sagrado ou não, o que mais nos afeta e nos limita é o rodar incessante dos ponteiros. Na perspectiva iniciática e filosófica, o tempo pode ser dividido em dois, assim como separamos o “ser” dos entes. Temos o tempo sagrado e o tempo profano. O primeiro termo, que vem de sacrum (grego) ou sanctum (latino), representa o tempo eterno, imortal, dos deuses e do infinito. O tempo profano é o passageiro, mortal, dos homens e do finito. Buscamos o tempo sagrado, nos ritos, para assim poder utilizar da melhor forma os momentos do tempo profano, que são os únicos – e fugazes – que dispomos em nossa existência. (fim da parte I. Na parte 2, como complemento aos estudos do Rito de Zoroastro, comentaremos algo sobre como alguns pensadores de várias eras, desde a Grécia antiga, até a contemporaneidade, interpretaram a relaçao da complexidade temporal com nossas almas e corpos.)