Lendas da Antiguidade, aula 013, parte II –  Interpretando o Mito do Templo de Enoch: Parmênides

O MITO DO TEMPLO DE ENOCH

1-Introdução

A parábola do Templo de Enoch é repleta de elementos metafóricos clássicos das epopéias heróicas e iniciáticas de tempos ancestrais. Estas passagens se desdobram em infinitas interpretações e reflexões, seja no campo da mitologia, seja na seara da Filosofia. Nesta Peça de Arquitetura optamos por abordar a ideia insólita da construção de um templo subterrâneo, completamente submerso e abaixo do nível do solo – como fez Enoch.Para decifrar estes mistérios é preciso, inicialmente, definir uma escola filosófica de pensamento que possa nos auxiliar nesta interpretação, sem enveredar por dogmatismos ou querelas ideológicas. Para esta missão, convocamos um justo representante do chamado período pré-socrático da filosofia : o velho mestre Parmênides vai, com galhardia, personificar o papel de arauto e mestre-de-cerimônias nesta jornada ritualística elucidadora.

2-A Lenda do Templo de Enoch

A lenda do Templo Subterrâneo de Enoch é contada em dois livros apócrifos do século I d.C., chamados “O Livro de Enoch” e “Os Mistérios de Enoch”. Nesta parábola, o profeta da sexta geração na linhagem sucessória de Adão manifesta constantemente o dom de receber visões premonitórias e delírios durante seus sonhos. Em uma destas experiências oníricas ele se vê no cume de uma grande montanha, que se estendia do solo aos céus. No alto deste legítimo Axis Mundi se encontrava ele próprio, Enoch, vislumbrando os horizontes infinitos repletos de nuvens.

Para conhecer a história do Mito, assista ao video “O templo de Enoch”- aula 13 do Curso Lendas da Antiguidade, neste Blog.

3-A passagem do Mito à Filosofia

lhas com os sírios e com os filisteus, a Arca desapareceu e o nome de Deus mais uma vez estava perdido. A Arca da

Para interpretarmos a lenda do templo de Enoch,  à luz do simbolismo mítico e iniciático que se fazem presentes nesta narrativa metafórica, é indicado fazermos uma pequena reflexão tendo por base a época em que a civilização experimentava profundas transformações na forma de compreensão do mundo, ou seja, vamos nos remeter aos chamados primórdios da história ocidental. Nossa referência é o universo grego clássico, cujas teses, que se apresentam a nós a partir de papiros e inscrições em pedras, remontam ao século VII e VI a.C. A visão do que é o universo estava se metamorfoseando. O pensamento mítico, fulcrado em grandes odisséias, em narrativas heroicas e cosmogonias divinas, paulatinamente se diluia. A mente abstrata do ser humano migrava seu fulcro da perspectiva metafísica, panteísta e naturalista para uma abordagem lógica e racional do sentido da vida. Os mistérios e as revelações das epopéias mitológicas, transcritas e vivenciadas nos cultos à Elêusis, a Orfeu e a Dioniso, dentre tantos outros, estavam ganhando contornos interpretativos com base em fundamentos calcados na matemática pitagórica, na busca por um princípio único e fundamental de tudo – a arché – ou em algo que pudesse, de forma desesperada e contingente, instituir um sentido harmônico, coerente e elementar a todos os componentes que afetam nossa fugaz existência na Terra.

Os mitos já não satisfaziam, na plenitude, as angústias do espírito humano. Entender a phisys, e fornecer um sentido racional, ou logos, às forças que nos impelem pela trilha do ser, eram demandas prementes a todos que, se afastando um pouco das atribulações da rotina dura e repetitiva do cotidiano, desejavam responder às mais inquietantes perguntas formuladas por todos os povos, em todos os tempos. A primeira questão que se apresenta, e que é a pedra inicial do jogo de saber o que verdadeiramente somos, é a antiga indagação “por que o ser e não o nada”. Responder a esta premissa parece muito simples à primeira vista, ou pode parecer, a muitos, não ter o menor sentido a formulação de uma pergunta assim. Como tratamos aqui de uma questão eminentemente ontológica, eis que surge, agora, aquele que pode decompor com precisão geométrica esta e outras indagações metafísicas relativas à saga de Enoch.

4- Parmênides

Nascido em 540 ou 512 a.C. (os relatos variam), vindo de uma família aristocrática, Parmênides fundou uma escola filosófica na cidade de Eléia, situada na chamada magna Grécia, atual sul da Itália. Teve como mestres, provavelmente, Xenófanes de Cólon (570 a 475 a.C.) , Ameinias (515 a 460 a.C.) e Pitágoras (571 a 495 a.C.) – com certeza, deste último nenhuma influência recebeu. ( a filosofia de Parmênides, em meu caso pessoal, tem uma importância relevante: somente a partir do contato com o seu pensamento, ocorrido meio por acaso – caiu em minhas mãos o poema “Sobre a Natureza” , único registro direto preservado de sua vasta obra – , surgiu em mim um desejo inexorável de aprofundamento no mundo fascinante e maravilhoso dos grandes pensadores filosóficos).

O pensamento de Parmênides é originalmente instigante e inquietante, mas se reveste de uma simplicidade incomum quando comparado a outras escolas filosóficas consagradas. Traz um viés de força ou ânimo para a vida, de beleza a tudo que vislumbramos no mundo, e de sentido lógico às engrenagens simbólicas que movem o que existe, existiu e existirá. Vamos tecer, em seguida, brevíssimas considerações sobre parte de sua filosofia.

5-A Ontologia

Parmênides é considerado o pai fundador da Ontologia. a filosofia parte da premissa que só podemos considerar que há duas facetas da realidade,a priori. Temos o “ser” e o , digamos, “não ser”. São apenas duas esferas ou alçadas a se considSuerar, neste momento: “ser” ou “não ser”. Tudo que “é”, é. Tudo que “não é”, não é – este é o chamado princípio da não-contradição. Em outras palavras se “A” existe, “A” é. Se “A” é diferente de “B”, e se “A” é, portanto “B” não existe. “B”, não “é”. Se “B” não existe, nada podemos declarar sobre ele. Melhor explicando: nossa mente nada pode conceber, racionalizar, interpretar ou discursar sobre “B” pois o que não existe ou “não é” , é inacessível. Vejamos um exemplo. Se você vê uma romã na sua frente, e declara que “a romã é”, ou existe, o que seria a não-romã? A não-romã seria tudo mais que não é a própria romã, ou seja, tudo que há além da fruta em tela. Se a “não-romã” é a totalidade, fora a própria romã, ela não existe ou não pode ser imaginável – isso porque o tudo é nada. É impossível conceber a não-romã. A não-existência da romã é incognoscível. Escapa à nossa capacidade abstrativa.

Uma derivação desta primeira premissa é que se “tudo que é, é” , logicamente “o ser” é a única coisa que existe desde sempre. Do “não-ser”, além de nada podermos declarar sobre si, nada pode ter vindo. O “não-ser” nada cria, muito menos criaria “o ser”. Portanto “o ser” sempre existiu e sempre existirá, nunca foi criado. O “ser” não pôde ser criado a partir do nada –ao contrário de algumas doutrinas que dizem que do nada surgiu o universo – e também nunca será destruído. O “ser” é ingerado, incriado, e indestrutível. Isso porque se fosse destruído se tornaria ou geraria o “não-ser”, e isso é impossível.

Outra resultante desta perspectiva é que “o ser” nunca se move. É imóvel. A explicação é óbvia: se “o ser” se movesse, iria para o “não-ser”. E isso não pode ocorrer. Nada pode caminhar, seja no espaço ou no tempo, em direção ao “não ser”. Tudo se limita apenas ao “ser”. Isto porque o “não-ser” , como já dito, é incognoscível, portanto é impensável que algo ou alguma coisa teria a capacidade de se mover em direção ao “não-ser”. O movimento é absurdo em termos de passagem do estado de “ser” para um estado de “não-ser”. Nada se move. Tudo é literalmente estático, petrificado, paralisado.

Em termos de composição do “ser”, ou de sua estrutura , Parmênides defende que “o ser” é uno. É uma única e singular substância. Nada há além do “ser”. Tudo é um. Um é tudo. Não pode haver dois, porque se isso ocorresse, um dos dois seria o “não ser”. E isso é impensável. Como o “ser” é uno, é onipresente, e nunca se transforma em qualquer outra coisa que não seja ele próprio, “o ser”. Se o “ser” fosse passível de sofrer qualquer tipo de transformação, se transformaria no “não ser”. Por isso, tal manobra é inviável. Tudo “é” o que “é” e ponto final, sem evolução ou alteração de qualquer tipo. Ele está em tudo e em todos locais e entes que habitam o cosmos perceptível.

Em termos de considerações sobre o tempo, nosso filósofo também oferece instigantes e bizarras – aos olhos do senso comum – conjecturas. Para o Eleata, o único tempo que existe, ou o tempo que “é”, é o tempo presente. O tempo passado e o tempo futuro são quimeras ou desdobramentos irracionais do “não ser”. O passado e o futuro pertencem ao “não ser”, portanto sobre estes dois supostos estados cronológicos nada sabemos, nada acessamos e nada podemos declarar. Não existe tempo passado e muito menos tempo futuro. Assim, conclui-se que a famigerada “passagem do tempo” não é possível: o tempo não passa. O tempo “é”. Pode parecer, então, que temos uma sucessão de infinitos momentos presentes. Mas isso não ocorre, porque uma sucessão já implica obrigatoriamente em movimentação ou andamento. Portanto, o que ocorre é apenas o momento presente, absoluto, ontológico e infinito. E só isso.

Considerando estas premissas, surge a pergunta: fica claro que o “ser” não se move, não se transforma, nunca muda, etc., mas temos a nítida impressão, pelos nossos sentidos, de que isso não corresponde à realidade. Tudo ou quase tudo, aparentemente se move. Os seres humanos e os animais se movem o tempo todo, exceto os mortos. Os agentes da natureza, as nuvens, os ventos, tudo está em constante fluxo e refluxo. Até as plantas são dinâmicas, só que em ritmo lento. Como se explica esse aparente paradoxo? Parmênides responde a isso dizendo que nossos cinco sentidos nos fornecem apenas ilusões da realidade, que é formada unicamente pelo “ser” com todas as suas características e propriedades intrínsecas e inexoráveis. Todos os estímulos sensoriais nos enganam, nos iludem. São factóides e derivações enganosas do real, ou seja, do “ser”.O que vemos não é a realidade, não é “o ser”. Este está encobertado, a coberto ou algo do tipo. Foge aos sentidos ter acesso ao “ser”.

Em relação ao tempo, temos a nítida impressão de que ocorre efetivamente uma passagem dos minutos e também temos certeza que o passado e o futuro existem de algum modo. Mais um paradoxo: como isto é possível, se na perspectiva de Parmênides, os tempos fora do presente pertencem ao “não ser” e em relação ao “não ser” não podemos declarar ou vislumbrar absolutamente nada? O fundador da escola Eleática esclarece com grande precisão esta sutil preocupação afirmando que nossas manifestações sobre o passado e futuro são meras opiniões ou crenças –  doxas em grego – e em nada correspondem à realidade. Sobre o passado temos boas (nostalgia) ou más impressões (arrependimentos), e sobre o futuro temos pressentimentos positivos (esperança) ou ruins (temores), mas tudo não passaria de opiniões irreais, que nada valem. E quanto à sensação de que o tempo passa, percepção essa que nos parece tão banal e verdadeira, diz o filósofo que esta sequencia de momentos seria uma evidente ilusão de nossos sentidos e de nossa consciência. O tempo, como tudo que “é”, é completamente imóvel.

6-Parmênides Entre Colunas

Agora que vimos um pouco do pensamento de Parmênides , mostrado aqui de forma extremamente breve e simplista, voltemos ao nosso Templo enterrado na Terra Santa. Eis que surge a pergunta: qual a relação desta perspectiva grega clássica de interpretar a realidade com a história de Enoch? Enoch mistura os simbolismos da Caverna e da palavra inefável do nome de Deus às desventuras de monarcas e arquitetos da antiga Palestina. Parece que não há conexão entre Parmênides e o profeta adâmico. Mas, se atentarmos para o que está por trás do véu ou das vendas destes elementos metafóricos hebreus, adornados por pinceladas espiritualizadas e metafísicas, notamos que, em suma, existe a ideia totalizante de que há uma única realidade. Um todo, aquilo que sempre foi e que sempre será, está presente na mística grega e na sacralidade palestina .

Parmênides afirma que tudo converge para aquilo que ele denomina “o ser”. Este conceito seria a razão e o fundamento primordial do universo. O Mito de Enoch reafirma, de maneira estilizada e ritual, a mesma assertiva de Parmênides: existe um sentido unificador e totalizante de tudo, similar ao ponto crucial da idéia do “ser”. Melhor explicando: o sentido da vida e da totalidade, seja o componente espiritual supremo – como o nome inefável de Deus- , sejam as nossas obras materiais – como os templos grandiosos- , sejam nós mesmos, se reúnem em uma estrutura una, indivisível, imutável, onipresente e atemporal.

Enoch considerava que este componente fundamental não seria exatamente esse constructo meio indefinido ou sombrio, chamado de o “ser”. Seria algo um pouco mais terreno, mais concreto ou palpável. Para ele o sentido da existência estaria relacionado à terra. Esta estrutura, na perspectiva mítica da Lenda, corresponde ao “ser” de Parmênides. A terra tudo origina, tudo abrange, e tudo contém. Nada escapa a sua força “gravitacional”. Tudo e todos convergem para a terra. Da terra saimos, e à terra voltaremos. Melhor explicando: nunca saímos da terra, do húmus, do orvalho no rosto, da grama cheirando à chuva em dias escuros. O Templo de Enoch, que representa nós mesmos, obviamente também nunca escapa da terra. Está permanentemente enterrado e justamente por isso não tem janelas – aliás, todos os templos consagrados a este elemento único e basilar, a terra, não podem ter janelas pois tais aberturas representariam um risco imenso de desabamento da estrutura.

Um detalhe que reforça esta nossa contingência simbólica à terra, enfatizada por Enoch, está bem caracterizado nas desventuras das iniciações antigas com cunho agro-pastoril . Nos ritos que representavam Orfeu (Ritos Órficos) ou Perséfone (Mistérios de Elêusis) , ou nas Iniciações dos cultos ao deus Dioniso ou a Mitra, há uma repetição ou reedição da mesma narrativa: os heróis/iniciandos começam sua provação abaixo da terra, em uma caverna ou gruta estilizada, e são amparados e orientado por um mestre rumo aos níveis superiores. Isto representa a elevação do neófito do plano das profundezas da terra – no caso de Orfeu e Perséfone, as entranhas da terra são chamadas de Hades– para uma outra realidade, que significa a possibilidade de se libertar do “ser”, de transcender ou de ascese rumo a alguma forma de “não ser”, ou rumo a um plano existencial “superior” em relação ao plano terreno. Claro que esta jornada é teatralizada de maneira a reforçar a verdade contrária: o iniciado jamais sairá da terra. Estas glórias de transmutação do real são viáveis, e isso fica evidente, apenas no imaginário destes mitos – daí advém sua força, sua beleza e seu vigor, que garantem a longevidade destas narrativas heroicas. Ensina Enoch que, no mundo real, ao qual retornam os iniciados após os cultos, este movimento de erupção da terra jamais ocorre: estamos permanentemente aprisionados no fundo da Gruta de Platão, nas profundezas do solo, ao lado de raízes, sementes, adubos, ossos e pedras brutas, do pó-ao-pó, e agregados a tudo que representa o verdadeiro “ser” , que personifica a legítima realidade da vida e do mundo. Se o neófito dos Mistérios de Elêusis, por exemplo, acreditar que realmente vai empreender uma aventura fora-da-terra, não foi realmente iniciado: permanece ainda um profano, um ente errante que vive no mundo das utopias ex-mundi. Fora da terra é o não-ser, e como reforça nosso doutrinador, é o nada. Fica claro, assim, porquê o Templo de Enoch sempre será subterrâneo, nada tendo em comum com, por exemplo, os jardins da Babilônia ou o cume do Monte Olimpo.

7- Conclusão

O Mito do Templo Subterrâneo de Enoch apresenta um conteúdo simbólico, no contexto mítico e filosófico, de grande valor a todos que se dedicam ao estudo das antigas tradições iniciáticas. Entender um pouco mais sobre esta parábola é, sem dúvida,  uma experiência profícua e estimulante. Isto porque muitos enigmas envolvendo as mais diversas ordens surgidas ao longo da história tem elementos metafóricos explicados através da interpretação da saga do pai de Matusalém. A decomposição de uma narrativa com este potencial de transmissão de conhecimentos, porém,  não é uma tarefa simples. Há sempre o risco, por exemplo, de nos perdermos pelos labirintos das ilusões sensoriais, dogmáticas e ideológicas que pululam as linhas e entrelinhas de textos que mesclam fé e história. Por isso recorremos à Ontologia de Parmênides . Apesar de outras vertentes se mostrarem vitoriosas no campo dos debates ideológicos do pensamento ocidental, em termos de explicar o sentido de tudo,  a originalidade na maneira de reinterpretar o mundo e os posteriores desdobramentos – a favor e contra – decorrentes de suas conjecturas garantem a Parmênides a permanência ad aeternum  na restrita galeria dos grandes mestres do pensamento. Com Parmênides ao lado, deciframos parte dos mistérios de Enoch e de seu Templo. Tais mistérios são, em suma,  relativos a nós mesmo e ao universo onde vivemos de forma inevitável e contingente.

( em breve postaremos a Interpretação Heraclitiana da Lenda de Enoch).

Carlos Alberto Carvalho Pires, M.I.

Referências:

1-Pugliese, M. “O Livro de Enoch”, 1a Ed, Rio de Janeiro,  Editora: Hermus, 2001.

2-Rodrigues,F. ; Iglesias, M. “Parmênides, Platão” 4a Ed, Rio de Janeiro, Editora: Loyola, 2003.

3-Popper, K. “O Mundo de Parmênides”, 1a Ed, São Paulo, Editora: Unesp, 2014.

4- Quigley C , “A Evolução das Civilizações”, 1a Ed, Rio de Janeiro, Editora: Fundo de Cultura,  1.96

5-Robinson JJ , “Os Segredos Perdidos da Maçonaria”, 1a Ed, São Paulo, Editora: Madras, 2.005 

6- MacNulty W K , “Maçonaria: uma Jornada por Meio do Ritual e Simbolismo”,1a ed, São Paulo,  Editora: Madras , 2.006 ;

7- Campbell, J. “O herói de mil faces”, 1a Ed, São Paulo, Editora: Pensamento, 1.995.

8-Eliade, M. “O Sagrado e o Profano”, 3a ed. São Paulo, Editora: Martins Fontes, 1.957.