Filosofia e Sabedoria – a Metafísica Aristotélica

por Carlos Alberto Carvalho Pires

ACTO I   A sabedoria é o conhecimento das causas.

         As causas, no sentido filosófico-clássico do termo, se referem ao o quê, ao como e ao porquê de uma coisa “ser o que é”. Aristóteles (384 a 322 a.C.) criou sua doutrina filosófica questionando a transcendência proposta por Platão (427 a 347 a.C.), pois acreditava que a verdade estaria no próprio mundo sensível, da natureza ou do devir.

Para compreendermos o funcionamento da natureza – que se refere aos seres vivos, sejam animais ou pessoas, e aos entes materiais em geral, bem como suas relações entre si e suas relações com o devir – seria preciso existir uma ciência específica, de acordo com Aristóteles, cujo objeto seria justamente estes elementos e o próprio devir. Tal ciência teorética foi chamada de Física, pelo estagirita.

Mas, para que a Física apresentasse efetividade era necessário que tivéssemos a certeza de que seu objeto de estudos – as coisas, os seres humanos e as ações em geral – existem, ou seja, são reais e verdadeiras. A ciência que se encarrega justamente desta comprovação deve ser um campo do conhecimento que estaria além da Física, e foi chamada de Primeira Ciência por Aristóteles e Metafísica por outros autores.

         A Metafísica ou Ontologia, que vinha despontando no horizonte da Filosofia desde Parmênides (530 a 460 a.C.), é o campo mais geral e universal do conhecimento humano. Busca explicar como e por que o objeto da Física é um “Ser” real e verdadeiro. Está voltada à chamada “essência” primordial ou elementar, ao contrário das outras ciências que se referem às essências particulares de cada área de conhecimento.

A Metafísica pode ser considerada como aquela que conhece, analisa e interpreta a “a causa principal” da existência de todos os outros campos do conhecimento, e por isso seu objeto de especulação é a causa de tudo – pois a partir deles são gerados e desencadeados todos os processos de elaboração das várias ciências. E essa causa ou estrutura, como vimos, é imanente – se fosse transcendente ou inteligível não seria causa de coisa alguma.

Deste modo, sem o seu objeto de estudos, nada existiria – é a dicotomia exclusória clássica entre “o ser e o nada”.  Ter conhecimento, ou sabedoria, sobre qualquer coisa “que é”, significa ter ciência, compreender e entender exatamente as causas e os princípios da Metafísica.

Aristóteles também afirmava que tudo está em movimento. Todos os entes, todos aqueles que “são”, apresentam potencialidades. Nada é ato puro no mundo do devir. Quanto mais material é o ser, mais está sujeito a ações externas. Mas este movimento sempre é gerado por um motor externo, ou seja, nada se move por si mesmo, exceto o chamado motor imóvel ou perfeito. Existem causas que geram estes movimentos constantes, cíclicos e eternos. Logicamente a área que se ocupa destas causas é a Metafísica. E o conhecimento dessas causas é condição necessária para se entender estes movimentos, ou estes devires, e tudo que existe.

 Portanto, quando falamos em sabedoria, nos referimos a ter conhecimento exatamente sobre esta ciência elementar, fato que pode ser traduzido por conhecer as chamadas causas de tudo que existe – que se referem à Metafísica em si – sem o quê o entendimento das outras grandes áreas fica comprometido ou mesmo inacessível.

ACTO II  A Filosofia pode ser considerada a ciência da verdade.

         Conhecer a verdade é, em última instância, o objetivo principal da Filosofia.

Platão afirmava que “a Filosofia é a busca pela verdade última”.

 Mas, o que entendemos por ser esta verdade

Cada escola filosófica apresenta uma forma distinta de encarar este problema.  O termo Filosofia pode ser considerado uma contração de philos – amor, amizade, atração, fraternidade – com sophia – sabedoria. É uma disciplina que investiga, discute, reflete e analisa as idéias ou visões do universo, indo do particular ao geral, ou vice-versa, de forma abstrata, conceitual ou fundamental.

No caso da Filosofia de Aristóteles, sabemos que a verdade para o poderoso mestre se encontra no mundo natural ou do devir, captado por nossos sentidos. A Primeira Ciência, estabelecida por ele e que se encarrega de elaborar os sentidos das essências primordiais de tudo que existe, busca encontrar empiricamente esta chamada verdade. A realidade, que é a seara de seus questionamentos, chega a todos de maneira heterogênea, captada pelos sentidos – que podem se enganar – e é interpretada apenas pela intelectualidade.

         Seja qual for a maneira com que os homens interpretam a existência – ou tentam interpretar – geralmente este processo psíquico ocasiona um incômodo em suas almas que demandam a necessidade de se organizar um sistema lógico de se compreender todos os fenômenos tangíveis e intangíveis. Esta inquietação “espiritual” faz com que os pensadores utilizem instrumentos de linguagem e procedimentos lógicos e meditativos para iluminar os labirintos das hipóteses e exercitar o racionalismo, que é a única possibilidade de se tatear a verdade.

         Conhecer toda essa complexidade “real” e interpretativa é o objetivo dos filósofos. A verdade, em termos filosóficos, pode ser alcançada exatamente através deste exercício sensitivo-intelectual que nos apresenta uma visão racional e lógica do universo.

 ACTO III Porque Aristóteles considera a Filosofia a ciência (ou o conhecimento) do ser.

         Aristóteles fundamentou sua doutrina filosófica basicamente na “theoria”. Sua visão de mundo pode ser considerada como essencialmente teorética e de fundo conceitual, como a de Platão. Ambos pretendiam desvendar os enigmas do Cosmos através do entendimento da questão elementar: “o que é”?

         Mas, ao invés de considerar que a essência das coisas, dos seres humanos e das ações em geral estaria em um plano alcançável apenas pelo intelecto, onde as formas primordiais seriam reais e eternas – existindo antes da própria criação dos homens – o objeto de sua Filosofia volta-se ao chamado mundo sensível, ilusório, da natureza, das aparências ou das sombras – pois neste estaria depositada a verdadeira essência de tudo.

         Para o Platonismo, a origem ou fonte de tudo seria a ação intelectual de nossas mentes, que já conheceriam as formas primordiais, e a partir deste conhecimento poderíamos elaborar e entender o mundo sensível que nos circunda e transpassa nossa existência.

         Aristóteles afirma que há uma relação exatamente inversa, pois seria a partir dos estímulos sensitivos, advindos de nossa vida no mundo sensível que, em um segundo momento, elaboramos um raciocínio ou entendimento sobre tudo. Não existiria a transcendência platônica a um mundo intelectual, pois a essência se faz presente exatamente no mundo da natureza – a imanência é a regra. Todos os fenômenos estariam presentes e atuantes no mundo do devir, se colocando na própria experiência existencial que opera no chamado “mundo sensível”. Neste plano existiria a multiplicidade de seres e a mudança incessante seria sua marca – como, por exemplo, o surgir, viver, reproduzir, pensar, dormir e desaparecer.

         Como a dedução aristotélica parte da análise intelectual da experiência sensitiva para o entendimento do todo é preciso compreender a ordem da realidade, que se estabelece por leis universais. Existe uma determinação presente no mundo real que é relativa às essências que orientam a efetividade da organização universal. Os conceitos e juízos, por exemplo, podem ser equivocados, pois são formulados na ordem ideal, mas no chamado campo dos sentidos, não há erros – pois as sensações são sempre verdadeiras.         

         Fica claro que o particular, o continente, e tudo aquilo presente no mundo real constitui-se em objeto próprio do nosso conhecimento sensível, e este é nosso conhecimento original. Sendo a intelecção do conceito ou idéia em si posterior à experiência dos sentidos, quem se relaciona diretamente ao “ser enquanto ser” é a experiência dos sentidos.

         Se o “Ser”, cuja essência se faz presente no mundo natural ou do devir, é a base ontológica de tudo que existe e se a Filosofia é o campo do conhecimento voltado a interpretação do universo, que também se refere ao todo, concluímos que Filosofia representa exatamente o estudo e entendimento do “Ser enquanto Ser”.

 ACTO IV “o ser tem muitos significados”

         Aristóteles estabeleceu o conceito da existência de uma grande ou elementar ciência que, pelo seu caráter universal, geral e amplo, explica de certo modo todas as outras ciências. Esta é a ciência mais importante e fundamental, pois além de avaliar os princípios e fundamentos de todas as coisas, investiga o que ficou conhecido como o “Ser enquanto Ser” e assim se constitui no instrumento de pesquisa especulativa de tudo que existe. É a causa primeira de tudo.

         Percebemos que Aristóteles atribui ao “Ser” a condição de elemento central, de objeto primeiro, de suas reflexões e deu sistema filosófico metafísico. Assim, se toda Filosofia se fundamenta na Primeira Ciência cuja “espinha-dorsal” é o “Ser enquanto Ser”, concluímos que a Filosofia pode ser definida, em última instância, como o conhecimento do “Ser”.

         De acordo com Chauí, “a essência ou ousia é a realidade primeira e última de um ser, aquilo sem o qual não poderá existir ou sem o qual deixará de ser o que é… há diferentes tipos de ouisiai”. Assim, podemos considerar como sendo a ousia a verdade de tudo que existe, e é ela que define o significado do “Ser”.

         A ousia se manifesta de várias maneiras, conforme o objeto ou “Ser” que está sendo considerado. Temos, por exemplo, a ousia relacionada ao seres naturais ou físicos, que são aqueles em devir e que só existem no devir, sendo basicamente os animais, vegetais e os minerais. Outras significações se referem aos seres matemáticos, que surgem como formas de coisas naturais, não existindo por si mesmos, mas que podem se separar da natureza pelo intelecto. Claro que não se submetem ao devir, pois não nascem não se alteram e não perecem com o tempo. Há a essência dos seres humanos, que diferentemente dos animais apresentam domínio da razão, da linguagem e da vontade.  E por fim, surge a figura do ser eterno, imutável, imóvel, perfeito e imaterial que seria o ser divino ou motor imóvel – pois move todo o resto sem se mover, e atrai sem ser atraído. 

         Os significados do “Ser”, também chamado de a essência primeira, são diversos, pois cada qual pode ser considerado uma extensão ou um modo de se manifestar dessa substância primordial, que tudo criou, continua gerando e vai assim persistir por toda eternidade.   (FIM)