Maçonaria e Igreja: Duas Filosofias, Uma Verdade

Veja o video abaixo, como complementação deste assunto:

por Carlos Alberto Carvalho Pires

1- Prólogo

 

Estávamos ao término de uma Sessão ordinária, em meados de 24 de junho, alguns anos atrás.  Sofrendo com um rigoroso inverno como raramente ocorre, este velho mestre só pensava no chá quente que tomaria em casa, para esquentar um pouco a longa madrugada de geada e ventos que se aproximava. Já desligando os controles e conferindo o painel da Coluna da Harmonia, que ficava sob minha responsabilidade, despedindo de um ou outro Irmão que saía tardiamente do Templo, mal percebi quando um jovem aprendiz se aproximou. O mais novo de todos, ignorando o barulho que vinha do salão anexo, onde a fraternal ágape já se desenvolvia, veio até minha mesa e quase sussurrando , falou:

“Meu Irmão, existe algum problema em um católico praticante, como eu, ter sido admitido como Maçom?”

Olhei profundamente em seus olhos. Senti que a inquietação era sincera. A angústia brotando do âmago de sua alma lembrava meus primeiros passos nas Colunas de Salomão, quando tantas inquietações inebriam nossa mente. Voltei a sentar, confortavelmente, no trono de Mozart, e religuei o painel do som. Minha pressão arterial deu uma ligeira oscilada. Notei que escorriam, sorrateiramente, três ou quatro gotas de suor pela minha testa, já um pouco enrugada. Pressenti que deixaria os Irmãos esperando mais um pouco, no salão de recepções, pois a necessidade espiritual vem antes dos pequenos prazeres – como a degustação alimentar.  Então, puxei a cadeira do Guarda do Templo, prostrada ali ao lado, e pedi que o jovem se aproximasse. A prosa iria demorar alguns minutos.

 

2- Preparando o Templo

 

Estando perfeitamente acomodados, coloquei a Ária de Bach ao fundo, tocando suavemente. Iniciamos nossa breve jornada criativa utilizando a magia presente nos meandros do Templo, já em momento de dormência e parcialmente dominado pelas trevas – apenas o abajur da Harmonia e a luz tênue sob o dossel do Venerável Mestre permaneciam acesos. Pedi que ele fechasse os olhos, por alguns instantes, e se concentrasse com afinco em imagens marcantes relacionadas ao início da Cristandade, que sabia estarem presentes em sua memória. Abstraindo sua mente dos estímulos ambientais seria possível captar a energia das terríveis batalhas dos pais da igreja, voltar aos tempos das catedrais e das cruzadas, reverberar a excepcional “Miserere” que resplandecia magnificamente defronte à basílica de São Pedro, e transcender pela arte admirando os afrescos cinqüecentistas de Michelângelo. Em seguida, sugeri que olhasse fixamente ao horizonte aparentemente infinito que nos cercava. Ficamos em total silêncio. Após alguns segundos de contemplação, eis que um fenômeno extraordinário começa a se materializar. Do breu da Coluna Sul surge um tênue contorno brilhante, delineando um esboço corporal, que lentamente se organiza. Quando olhamos mais amiúde definimos a eclosão da figura clara e rotunda de um nobre clérigo, aparentando idade avançada, com longos cabelos grisalhos esvoaçando sobre a fronte. Circunspecto e sereno, declarou seu nome em alto e bom som, como sendo o Senhor Próspero Lorenzo Lambertini, conhecido historicamente como Papa Bento XIV. Fez um ligeiro cumprimento com a cabeça e sentou-se, mantendo a postura indiferente e o nariz meio empinado, atitudes típicas dos grandes sábios.

Logo após esta “aparição” vemos outro fenômeno se manifestando, agora na Coluna Norte. Após uma gélida lufada de ar, que parecia uivar em meio às poltronas, percebemos mais uma imagem se cristalizando. Aos poucos definimos uma nova presença humana. Um senhor vestido com um roupão talar vermelho, usando um chapéu muito bonito disfarçando a calvície avançada, surge das profundezas do setentrião. Com finos óculos sobre o nariz longilíneo, ostentava um turíbulo fumegante que balançava com maestria. Anunciou-se como Senhor Giácomo della Chiesa, ou simplesmente Papa Bento XV. Acomodou-se na cadeira próxima ao lugar do adjunto do Mestre de Cerimônias. Nosso aprendiz estava estupefato, com a boca semi-aberta e os olhos paralisados.

Mais um minuto se passa, e do Oriente surge uma névoa branca, tenebrosa, que nos envolve por completo, a partir dos pés – semelhante ao fog que levou todos os primogênitos nos tempos do Êxodo. Do meio desta assustadora nuvem espiritual que rapidamente turva nossa visão, vemos uma imagem bem conhecida se formando, encobrindo a linha de visão do Olho de Hórus. Um sorriso meio forçado denuncia que o ancião está desconfortável por estar entre colunas. Eis o Senhor Joseph Alois Ratzinger, que chega rebatizado como Bento XVI, chacoalhando os braços sobre a cabeça como quem ganhou um campeonato ou algo do tipo. Sentou em uma cadeira de Mestre Instalado, ao lado da Oratória, e ali permaneceu admirando as alegorias.

O jovem ao meu lado parecia não acreditar no que via. Certamente pensava se seriam estes os poderosos mistérios da Maçonaria, mantidos em segredo terrível pelos mestres, permanecendo assim longe da curiosidade profana.

Levantando-se vagarosamente, nosso primeiro convidado passou a olhar dilacerantemente em nossa direção, com o dedo indicador da mão direita em riste, apontado para nós. Apesar do tremor contínuo e temerário, tal membro deixava claro que todo peso e glória do anel de Pedro se fariam presentes durante sua fala.

 

3- Palavra na Coluna Sul: começa Bento XIV

 

 “Caros senhores, nasci no dia 31 de Março de 1.675, em Bolonha, e fui declarado Papa em agosto de 1.740. Em relação à chamada ‘seita’ maçônica especificamente, estabeleci a interpretação adequada da bula editada pelo meu antecessor, o querido Papa Clemente XII.  Na extraordinária  ‘In Eminenti Apostolatus Specula’, de 1.738 , a bula seminal de nossa batalha contra Hiram,  o assunto foi tratado, infelizmente, de forma  genérica. Como faltava uma explicação mais amiúde das razões desta justa condenação, tive que agir . Então, em 18 de Maio de 1.751 , data que deve ser temida por todo maçom , emiti a bula ‘Providas Romanorum Pontificum’ , na qual as terríveis razões de incompatibilidade são detalhadas. Inicialmente , em verdade vos digo que não podemos aceitar que à Maçonaria , cujas assembléias são secretas , se filiem homens de todas as religiões, fato que pode corromper a pureza de nossos fiéis . Esta convivência ecumênica não nos parece salutar . Depois, esta história de segredo inviolável, que se defende nas reuniões, é impróprio ao perfil dos bons católicos . Não pode haver sigilo das ovelhas em relação aos santos pastores, que são os sacerdotes de Roma. Nem em sagrada confissão um pecador pode revelar o que se passa nas Sessões, de acordo com a seita – isto é uma afronta ao nosso poder eclesiástico. Outra razão importante é que os maçons se recusam a aceitar as sanções canônicas, o que já constitui em motivo para total incompatibilidade e excomunhão de ofício. Concluindo, digo que todos os homens de bem devem se afastar desta maligna força. A punição aos que desrespeitarem nossas ordens é, obviamente, a excomunhão imediata e definitiva. Sou Bento XIV, o primeiro dos três Bentos. Juntamente com meus dois colegas representamos a linha de frente de nossa Sagrada Igreja nesta querela contra a coisa maçônica. Assim seja” .

Após esta explanação, nossos olhares se voltaram à Coluna Norte, onde o segundo Bento já estava em pé. Turíbulo ao chão, óculos na mão, voltou sua face para o nosso lado, reclinando o corpo à frente como faz todo bom filósofo.

 

4- Palavra na Coluna Norte: fala Bento XV

 

“Meus filhos, sou Bento XV. Nascido em Gênova, no ano de 1.854, fui escolhido Papa em 1.914. Sou chamado, por muitos, de ‘Papa da Paz’, uma vez que trabalhei pelo fim da I Guerra Mundial. Alguns argumentam que meus motivos eram políticos, pois os dois lados em litígio eram nações católicas. No final me excluíram das negociações do Armistício – isto quase gerou a excomunhão de todos que tramaram contra este santo Bispo de Roma. Em relação à chamada Maçonaria, minha posição está registrada na principal obra de minha vida, a promulgação do ‘Codex Juris Canonici’ em 27 de Maio de 1.917. O chamado primeiro Código Canônico – a compilação de toda legislação específica da Igreja Católica Romana – tornou todas as outras publicações ‘jus vetus’. Neste documento foram enumerados 2.414 cânones. Vários se referem à ‘orda’ maçônica, que infelizmente seguiu crescendo, mesmo após as condenações enunciadas por meus caros predecessores. Vejam agora, meus amigos, em alguns poucos exemplos, como este humilde servo do Senhor entende vossa Irmandade. No cânone 684 afirmo que os fiéis devem fugir das associações secretas, sejam quais forem, pois estas escapam à legítima e sagrada vigilância de nossa Santa Igreja. Reforço esta conduta no cânone 693, no qual proíbo os maçons de participarem de qualquer irmandade religiosa. Desaconselho às jovens fiéis que se casem com membros desta entidade ( cânone 1.065), pois toda família deve ser criada à luz de nossa Igreja, e longe das heresias. Quando falecidos, se não se arrependeram a tempo por este erro, os homens devem ser privados de sepultura eclesiástica – diz o cânone 1.240. E, complementarmente, o cânone 1.241 nega o direito de missa exequial e de qualquer forma de ofício fúnebre a estes pobres. Pensando também nos livros que carregam esta malévola doutrina, resolvi proibi-los (cânone 1.399), fato que visa frear a disseminação destes princípios nocivos aos puros. Nos cânones 2.333, 2.334 e 2.335 demonstro minha posição de forma magistral: ordeno que todos que entram nestas seitas maçônicas sejam sumariamente excomungados, de maneira ‘latae sententiae’, pois o simples fato de terem  se filiado já é razão inquestionável para este  apartamento de sua Igreja Mãe. Neste status, devem ser afastados dos sacramentos, como confissão, comunhão, matrimônio, e unção dos enfermos. Falo como legítimo herdeiro da Cátedra de São Pedro e único porta-voz da vontade divina. Aleluia”.

Neste ponto o trepidante aprendiz estava encolhido na poltrona, com olhos lacrimosos, parecendo que participava de um réquiem. Mas ainda temos um ilustre a ser ouvido. Do fundo do Oriente, com aspecto frágil, o último dos Pastores se prepara calmamente para a preleção, sempre sorrindo e acenando efusivamente para todos os lados do Templo, como se o mesmo estivesse lotado de ouvintes.

 

5- Palavra no Oriente: manifesta-se Bento XVI.

 

“Meus queridos Irmãos, observo que de tempos em tempos ressurge uma dúvida cruel nas almas de nossos fiéis, que participam da enigmática Maçonaria: a posição da Santa Igreja, manifestada desde meados do século XVIII, foi alterada? Será que novos tempos chegaram? Os católicos, agora, podem se filiar às tais sociedades, sem risco de punição? Estas inquietações cíclicas ocorrem porque vários estudiosos se manifestam livre e equivocadamente sobre esta matéria, e os fiéis, tendo contato com este material, tendem a confundir as opiniões destes pesquisadores como se fossem posicionamentos formais do Vaticano. Somando isto ao desejo ‘aeternum’ de muitos maçons em serem aceitos no seio da Igreja sem risco de censura, sanção ou algo pior pode complicar malignamente o entendimento do que realmente sucede. Vejam bem, meus amados filhos: de 1.738 , época da primeira bula, até 1.980 , foram emitidos 371 documentos oficiais pela Cúria Romana, todos condenando visceralmente a tal sociedade de Pedreiros. Com a promulgação do novo Código Canônico em 25 de Janeiro de 1.983, por Sua Santidade o Papa João Paulo II, tudo parecia diferente. A denominação expressa do nome da Ordem que surgia no cânone 2.335 do antigo texto de 1.917 havia sido suprimida na nova versão. O cânone 1.374, que entrou em vigor em 27 de Novembro de 1.983, se refere às ‘associações que maquinam contra a Igreja’, não trazendo o vocábulo ‘Maçonaria’ anteriormente existente. Parecia, aos olhos dos mais afoitos, o fim da condenação existente há mais de 250 anos. Surgiu, então, a necessidade urgente de melhorar o entendimento da norma, aparentemente mais branda. Assim como fez Bento XIV em relação à bula editada por seu predecessor, nossa Sagrada Congregação agiu rapidamente. Através de uma declaração de minha autoria e anuência plena do Papa João Paulo II, com título ‘Declaração sobre as Associações Maçônicas’, reafirmamos que permanece inalterado o parecer negativo da Igreja em relação às associações maçônicas. Seus princípios continuam sendo considerados inconciliáveis com a doutrina da Santa Sé, e os fiéis ainda estão proibidos de se filiar à Ordem. Aqueles que insistirem nesta situação se considerem em estado de pecado grave, sem autorização para se aproximar da sagrada comunhão. A pena de excomunhão continua em vigência. Então, meus Irmãos, nada se alterou desde a poderosa bula ‘In Eminenti Apostolatus Specula’,à glória de Clemente XII. Dito isso, assim foi, e assim será por todo o sempre”.

 

6- Palavra na Coluna da Harmonia: resposta aos três Bentos

 

Levantei-me, ritualisticamente. Direcionei o olhar ao neófito. Travado na cadeira como um templário sangrando nas garras de Felipe IV, tinha as duas mãos gélidas sobre as pernas, com os dedos ligeiramente contorcidos. Parecia querer tirar o avental e sair correndo, escadaria abaixo. Todos os presentes se voltaram para a Coluna da Harmonia. Após uma breve pausa, comecei a falar, quase sussurrando, embalado pelo magnífico Adágio para cordas e órgão de Tomaso Albinoni.

“Meu querido Aprendiz, responderei a cada uma das colocações aqui manifestadas, respeitando acima de tudo o justo direito de cada um ter sua própria opinião que reflete, por extensão, a posição formal da Igreja que representam. Começo pela fala de Bento XIV. Lembro ao nobre bispo que na aurora da cultura e da civilização, quando o pensamento abstrato recém desenvolvido impulsionava a humanidade a um nível ético-moral acima das coisas naturais, os princípios elementares que operam no campo do sagrado começaram a florescer. Estes elementos estimularam a eclosão das tradições místicas seminais, em um primeiro momento, e secundariamente determinaram o aparecimento das inúmeras vertentes religiosas. Vários estudos comprovam que o pensamento mágico apareceu por volta de 100 a 90.000 a.C, e as primeiras manifestações religiosas apenas há 20.000 anos. Então, percebemos que não se concebe que a bagagem cultural derivada – a religiosidade – renegue ou refute o agente originário, seu princípio criador , ou mesmo a chama primeira, que foi a tradição dos cultos antigos. E destes elementos, desta estrutura de pensamento transcendental, deriva grande parte do universo simbólico maçônico. Os sábios esotéricos, os magos visionários e os sacerdotes em geral se alimentaram da mesma sopa, saída deste caldeirão criativo aceso pelos primeiros profetas. Portanto, não se justifica qualquer forma de restrição à comunhão dos papéis de fiel e obreiro, baseada em eventuais divergências  na doutrina, na filosofia ou nos princípios essenciais que são comuns às duas ordens – ambas são frutos da mesma árvore, cujo tronco germinou no início dos tempos.

Falando sobre o discurso do poderoso Bento XV, atento ao fato de que suas palavras refletem a chamada Lei da Igreja. Podemos chamá-la de códigos, normas, regulamentos, ou por qualquer outra denominação. Estas manifestações têm em comum o fato de se referirem às regras que os mandatários estabeleceram ao longo dos séculos, com toda legitimidade em suas esferas eclesiásticas, como obrigações formais a serem cumpridas por todos os membros de suas agremiações. Lembremos, porém, que a Igreja têm repetidamente demonstrado que estes institutos não são imutáveis. Pelo contrário: a tradição nos ensina que o proibido hoje, é o tolerado amanhã, e o desejável no futuro. A transitoriedade é a regra. Não se concebe a perenidade de tais letras. As únicas instâncias que se apresentam como pétreas se referem aos chamados “pactos de fé”, estabelecidos entre os profetas fundadores e as divindades. Estes constituem as pedras fundamentais de todas vertentes religiosas. Tais atributos são eternos, inquebrantáveis, inquestionáveis e representam o início exato de cada tradição cultural religiosa. O exemplo mais conhecido destes fenômenos, na esfera judaico-cristã, foi o pacto entre Abrahão e Jeovah, em que cada parte apresentava seu sacrifício, além das promessas e obrigações decorrentes. Depois veiram inúmeros outros, como o acordo de Noé, firmado antes do dilúvio. Digo isso para que você, meu jovem amigo, tenha uma certeza: em relação a estes princípios nada, absolutamente nada existe que possa representar uma possível incompatibilidade entre ser um legítimo maçom e um fiel praticante de qualquer religião. Nossos princípios são conciliatórios a estes ideais, que estão na gênese dos cultos, e jamais se confundem com a materialidade e transitoriedade das ações humanas expressas, muitas vezes, em regras de gestão da máquina burocrática criada à sombra da fé. Esta política “demasiada humana” já se dobrou inúmeras vezes à força da dinâmica histórica, como ocorreu na crise da Reforma ou quando surgiram os estados absolutistas europeus, assim como no século das luzes e depois no contexto das revoluções burguesas, e em tantas outras ocasiões. A jurisdição eclesiástica teve que se refazer face às novas realidades e nem por isso se afastou da sua missão essencial ou mesmo da palavra sagrada, que defende e difunde. Portanto, uma condenação provisória estabelecida por estes doutrinadores jamais significa a vontade absoluta da divindade ou dos verdadeiros pais da Igreja. Na perspectiva histórica da humanidade, são fatos irrelevantes. Daqui a quinhentos ou mil anos, como será o regramento estabelecido para as futuras ovelhas? Isto ninguém pode responder, pela mesma razão que não devemos estabelecer juízos de valor em relação à consciência das pessoas e à própria evolução social.

Ao nosso ilustre Bento XVI, poderoso baluarte em defesa das tradições mais puras da Cristandade católica, sugiro humildemente que pondere com serenidade sobre a virtude da tolerância. Somente a aceitação do outro na forma que a nós se apresenta permite a convivência pacífica entre todos, e assim a almejada harmonia social pode ser uma realidade. Mesmo se não temos as mesmas opiniões sobre as grandes questões filosóficas, devemos nos respeitar como diferentes no campo das idéias, mas absolutamente iguais na natureza humana. Garantindo assim a dignidade das pessoas, podemos sonhar com a perenidade do que intitulamos “civilização”. Todos devem buscar seus caminhos de acordo com suas próprias consciências, sem a necessidade de algo externo a si-mesmo que as guiem cegamente por estes labirintos da alma. A história nos traz uma grande certeza: jamais devemos tentar impor nossa verdade de maneira autoritária às pessoas. Sempre que o homem buscou este atalho, forçando a hegemonia de seus paradigmas aos outros, apesar de muitas vezes iludidos por um sentimento de estar fazendo o bem ou desejando o melhor, gerou apenas catástrofes, genocídios e tragédias. Vemos isto muito bem registrado nos massacres das nações pré-colombianas e indígenas, nos terríveis regimes totalitários do século XX, e em toda forma de hegemonia transcendental que  se rotulava como legítima redentora da humanidade. A defesa incólume do direito de qualquer pessoa conviver com as diferenças deve estar permanentemente na ordem do dia de quem deseja ser considerado um justo defensor da mais perfeita ética. Só assim um líder será merecedor da estima edo respeito dos homens, e assim bem quisto nas comunidades dos homens e dos céus.”

 

7- Encerramento dos Trabalhos

 

A Harmonia repentinamente manifesta um acorde marcante, uma nota alta da 5ª Sinfonia de Beethoven, recém iniciada. Em um segundo a magia se quebra.  A névoa se dissipa. Nosso valoroso Aprendiz dá um pequeno sobressalto. Olhando atônito para as Colunas, pergunta:

 “Irmão, onde estão as figuras emblemáticas que aqui estavam, os três ilustres chamados Bentos?”.

Então, me aproximando um pouco mais, toco levemente seu ombro. Explico serenamente o que ali se passou:

“Não havia ninguém aqui, apenas nós dois. Tudo foi um exercício de imaginação, que vivenciaste de maneira extraordinária. O tempo todo era eu, este velho Mestre, contando estas histórias que tão bem prenderam vossa atenção. Nossas mentes nos levaram a estes caminhos inexplicáveis da abstração, em busca da Verdade, guiados pelo Egrégora maravilhosa que surge em momentos de real manifestação da mística esotérica”.

Vejo uma expressão de alívio e tranqüilidade emanada da face do jovem. Em um último momento de dúvida, enquanto descíamos as escadarias rumo ao salão de recepções para tomar um cafezinho – pois a ágape há muito já terminara-, ele pergunta: “Mestre, quanto à posição inflexível, mas transitória, da Igreja, não tenho dúvidas. Mas, qual a conclusão final que todo este exercício nos traz, em relação estritamente à nossa Ordem? Há algum problema em um Maçom ser católico?”.

Como resposta, indago olhando fundo em seus olhos:

 “Você se sentirá em perfeito equilíbrio mental e espiritual, e assim apto a se dedicar aos momentos de contemplação necessários ao aprendizado maçônico se durante as futuras Sessões as figuras dos Bentos permanecerem entre  Colunas, observando cada gesto seu, como ocorreu nesta noite mágica? Serás capaz de tolerar estas presenças espirituais, que vão desejar, indubitavelmente, interferir no desenvolvimento dos vossos trabalhos para que desistas de buscar a sabedoria dos tempos ancestrais?”.

A conclusão final desta Instrução depende da resposta à pergunta acima. Se um Irmão realmente se livrar de todas as amarras psíquicas e dogmáticas quando estiver se dedicando aos trabalhos de reconstrução mística do Templo de Salomão, não há o que temer. Nesta situação, de total equilíbrio e conhecimento pleno de si-mesmo, ciente de que nossa missão se remete a toda existência, a toda eternidade, nos transformamos em verdadeiros Obreiros da Arte Real, e nada pode atrapalhar nossos passos em busca da Verdade.

 Referências:

1-      Benimelli, José A.F., “Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria. História de uma Condenação Pontifícia, editora MAdras, 1ª Edição, 2.007;

2-      Código de Direito Canônico, Editora Loyola, 1.997;

3-      Gomes, Valdir “Igreja Católica e Maçonaria”, Editora Literalis, 3ª Edição, 2.001

4-      Kloppenburg , Dom Boaventura“Igreja e Maçonaria : conciliação possível?”, editora Vozes , 5ª Edição , 2.000;

5-      Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom, GLESP, São Paulo, 2.002;

6-   http://www.vatican.va/holy_father