A Filosofia e a Retórica – parte I

por Carlos Alberto Carvalho Pires

A retórica pode ser considerada a ciência ou o ramo do conhecimento dedicado ao ato de falar bem, ou seja, de se comunicar com precisão e assim conseguir o convencimento da platéia sobre o conteúdo do discurso realizado. Criada originalmente pelos sofistas gregos, dentre os quais se destacam Górgias de Leontinos, Protágoras e Hipõcrates (século V a.C.), a retórica é um exercício de linguagem onde não há preocupação com a comprovação empírica ou racional dos argumentos emanados. Górgias dizia que o objetivo era apenas de convencer os juízes ou conselheiros que ouviam suas palavras, e que devido ao grande talento do orador este deveria ser capaz de falar sobre qualquer assunto e com mais beleza do que todas as outras pessoas conseguiriam.

            Abbagnanno cita Platão e Aristoletes ao tratar deste assunto, afirmando que a retórica pareceu a Platão mais próxima da arte culinária do que da medicina, mais apta a satisfazer o gosto do que melhorar a pessoa, e também considera que a retórica e a arte de considerar, em qualquer caso, os meios de persuasão disponíveis, indo alem das tradicionais maneiras de se convencer pelos seus objetos próprios. Entretanto, este filósofo considerou a retórica como tendo uma intima relação com a dialética, como se fosse um tipo de contrapartida desta (ABBAGNANO, 1998).

            Outros autores, como Japiaussu e Mendonça, dizem ser a retórica a arte de utilizar a linguagem em um discurso persuasivo, por meio do qual tenciona-se convencer a platéia sobre a verdade de algo. Seria, portanto uma técnica argumentativa, em nada se baseando na lógica ou no conhecimento para sua elaboração. Aristóteles dedicou um tratado à retórica – chamado de “Retórica” e dividido em três livros – sobretudo distinguindo-a do uso lógico da linguagem sistematizado na teoria do silogismo (JAPIASSU, MENDONÇA, 2001).

            Existe uma comparação ou similaridade de sentido entre retórica e oratória. Neste caso, sabemos que oratória é uma tradição mais tardia, advinda da Roma antiga e que se voltava exclusivamente às técnicas de comunicação, sem se preocupar com as medidas ou estratégias de contestação ou persuasão, típicas da retórica grega clássica. E havia também uma grande valorização da eloqüência na fala, no caso da oratória. Isto decorre do fato histórico da retórica ter sido criado em um ambiente democrático, enquanto a oratória floresceu na Roma ditatorial. Assim analisando o significado da retórica, podemos constatar que esta pode ser definida como a arte da persuasão ou convencimento e oratória como sendo a busca da beleza no falar em público.

            Nossa conclusão, em termos filosóficos, é que a retórica pode ser um eficiente instrumento no sentido de facilitar a divulgação das idéias, dos pensamentos e dos discursos, mas isto só é válido desde que estes contenham outros predicativos que justifiquem seu enquadramento na categoria de manifestações filosóficas, e não apenas discursos populares ou comuns.

            Devemos sempre lembrar que longe está, da Filosofia, o querer convencer as platéias de suas colocações meramente pela bela forma com que estas surgem ou se manifestam. As platéias da filosofia também não são as mesmas dos tribunais ou das grandes preleções públicas.

            A filosofia é feita e direcionada a poucos, não às massas. No meio acadêmico, ou em salas de aulas do ensino médio ou fundamental, o conteúdo deve prevalecer em relação às formas. Portanto, quanto mais retórica for a manifestação, mais cuidado e atenção deve ser requerida por parte da platéia para checar, com critérios lógicos e racionais, se o discurso é realmente válido.

REFERêNCIAS:

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia.5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

JAPIASSU, H. MARCONDES, D. Dicinário Básico de Filosofia. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

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