A Egrégora Maçônica e a criação da Civilização

por Carlos Alberto Carvalho Pires 

“Que vindes buscar aqui?”

 

            Esta pergunta aparentemente tão simples, presente em diversas passagens de nossos rituais, pode parecer banal à primeira vista. Mas, a verdadeira razão que semanalmente nos leva aos templos, traz em seu cerne um dos mais profundos mistérios de nossas tradições. Este desejo inexorável pela sublime conjugação com a luz maçônica é deveras antigo. O mesmo animus que atrai os iniciados aos trabalhos nos dias de hoje já operava com força e vigor na aurora do homem, tendo desempenhado papel fundamental em alguns momentos-chaves de nossa história. Apenas depois que os pensadores do passado resolveram se unir em fraternidades surgiu os templos e as cidades. A força deste desejo pela transcendência e conexão alquímica com os mais sagrados mistérios, além de justificar a própria existência de nossa Sublime Ordem, foi a pedra angular para a criação do que chamamos de civilização humana. Sem os trabalhos ritualísticos ancestrais, o homem ainda seria um ser errante, perdido em meio aos instintos básicos, sem manifestar qualquer esboço de estrutura social mais organizada. Nesta breve peça de arquitetura vamos refletir sobre três passagens de nossa jornada evolutiva que comprovam a idéia de que toda obra arquitetônica e cultural jamais criada seriam fruto do mesmo sentimento que nos une como Irmãos, a cada abertura dos trabalhos.

 

1-PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DA EGRÉGORA ANCESTRAL

 

O Homo sapiens surgiu há 150.000 anos, durante o período Paleolítico Médio. Para sobreviver, realizava a coleta de frutas e tubérculos e caçava animais selvagens. As comunidades gozavam uma vida tranqüila, ociosa e pacífica. Esta visão paradisíaca do mundo, porém, estava com os dias contados.

Por volta de 40 a 35.000 anos atrás, um fenômeno extraordinário ocorreu. Uma metamorfose explodiu nas mentes de alguns bravos pensadores, gerando uma nova forma de encarar a realidade. O homem passava a questionar o universo tangível, regrado pelos cinco sentidos, e partia para jornadas rumo a algo mais. Foi a eclosão do chamado “Pensamento Simbólico”, que requeria determinados procedimentos meditativos em grupos seletos de pessoas escolhidas dentre os mais sensíveis a este insight revolucionário. Apareceram os rituais elementares, que exigiam união fraternal, rigor na escolha dos candidatos e códigos de honra inquebrantáveis. Sem a congregação em grupos, o pensamento simbólico seria apenas um repente momentâneo esquecido rapidamente.

Os primeiros sítios escolhidos para realizar os trabalhos foram algumas cavernas tortuosas, desbravadas a luz de tochas. Ali os especuladores pioneiros eram iniciados e os magos registravam em magníficas pinturas as visões transcendentais que obtinham em momentos de transe profundo. Estas verdadeiras obras primas feitas nos tetos e nas paredes das grutas representavam pictogramas geométricos multicoloridos, desenhos de animais da fauna local, como bisões, mamutes e antílopes, e algumas formas humanas e antropozoomórficas. Foram achadas primeiramente em Altamira (Espanha, 1.879), depois em Lascaux (França, 1.940), na África do Sul, no Oriente Médio e em toda Europa. Pablo Picasso afirmou defronte Altamira que “definitivamente nada aprendemos ao longo dos tempos” – uma forma significativa de elogiar os talentos artísticos do passado.

Todas estas reproduções apresentavam traços estilísticos similares, apesar de oriundas de comunidades distintas e completamente isoladas. O que levou ao desenvolvimento quase simultâneo destes estímulos criativos em muitos grupos geograficamente separados ainda é um completo mistério para a comunidade acadêmica. Mas, para um verdadeiro especulador da Arte Real, existe uma hipótese. Esta revolução primordial experimentada pela humanidade representa o início da busca incessante pelo desvendamento dos enigmas mais intrigantes. O desejo dos homens de se conectar espiritualmente entre si e a planos intangíveis, acessíveis apenas durante trabalhos ritualísticos estilizados, foi forte o suficiente para agregar os bravos caçadores em torno dos primeiros altares.

Esta fase das pinturas rupestres teve seu fim por volta de 20.000 anos atrás. Os artistas pararam com as elaborações contemplativas junto às rochas úmidas do interior das cavernas. Isto porque outra poderosa revolução criativa brotava nas mentes inquietas dos magos, trazendo inexoravelmente o esvaziamento das grutas. Uma nova ferramenta matemática passava a operar, estabelecendo novos parâmetros estruturais aos sítios de culto ao sagrado. Entrávamos na era da Arquitetura.

 

2- SEGUNDA MANIFESTAÇÃO: DAS CAVERNAS AO TEMPLO   

 

Em 1.963 um sítio arqueológico foi localizado no sudeste da Turquia. Conhecida como Göbleki Tepe, era uma montanha bizarra contendo ferramentas de sílex e artefatos de ossos depositados sob uma fina camada de solo. Supôs-se que se tratava de um local de práticas ritualísticas, enterrado sob a areia. O valor deste achado foi completamente ignorado àquela época. Mas, a partir de 1.994, novos estudos desenvolvidos por arqueólogos do Instituto Arqueológico Alemão (D.A.I.) abalaram os alicerces de todo conhecimento relativo à evolução histórica da humanidade.

O que surgiu, a partir dos primeiros levantamentos, foi a mais extraordinária descoberta arqueológica dos últimos anos, ou talvez de todos os tempos.

A montanha enigmática foi criada artificialmente, e mede aproximadamente 300 metros de diâmetro. Em seu interior, sob toneladas de areia, se localiza um imenso templo multilocular de extrema complexidade. Aliás, é provável que existam diversos templos sobrepostos, erigidos em épocas distintas ao longo de muitas gerações. Sua idade é um mistério, pois as escavações ainda não se encerraram. Dados preliminares indicam que o estrato mais profundo pesquisado até o momento data de 20.000 anos atrás, ou 15.000 a mais que Stonehenge, e 12.000 anos mais antigo que o misterioso sítio de Çatal-Hüyüki, na Anatólia.                                          

Foram desenterradas grandes estruturas circulares constituídas de arranjos complexos de rochas, algumas assumindo formas concêntricas. Formadas por pilares e monólitos de calcário com quatro metros de altura, são semelhantes arquitetonicamente aos santuários de pedras encontrados na Europa e na Ásia, como o de Nevali Çori. Os blocos em geral têm forma de T. Nas faces destas rochas existem elaborados entalhes reproduzindo, em relevo, figuras diversas como leões, raposas, javalis, pássaros, garças, escorpiões, patos, formigas, e alguns insetos ainda não identificados.

No meio dos círculos surge uma espécie de átrio onde se posicionam duas rochas maiores, uma defronte a outra. Com mais de 5 metros da base ao cume, ostentam esculturas bem definidas de braços e pernas, mas não apresentam olhos ou faces. Para alguns estas duas pedras maiores simbolizariam o casal arquetípico primordial, Adão e Eva, após a “Queda”, pois já seriam trabalhadores. O próprio Göbleki Tepe é tido, em alguns círculos, como sendo o verdadeiro Éden, dada sua localização e demais características que coincidem com as descritas nos textos sagrados.

A construção desta monumental estrutura certamente foi um trabalho hercúleo. Nesta fase ainda não existia a roda, nem o domínio das técnicas de cerâmica e muito menos tinha surgido a metalurgia do cobre, do bronze ou do ferro – tudo ali foi realizado com ferramentas toscas de sílex, de pedras e de ossos de animais. A humanidade era basicamente constituída por grupos nômades de caçadores-coletores.

            Não existem evidências de habitações na área. Todas as estruturas encontradas são consideradas exclusivamente voltadas aos cultos – inequivocamente são templos.

 

3- TERCEIRA MANIFESTAÇÃO: DO TEMPLO À CIVILIZAÇÃO     

 

Göbekli Tepe foi construído na época da selvageria. Neste tempo de caos a vontade dos magos foi tão poderosa que agregou pessoas e sonhos a ponto de viabilizar a criação da primeira proto-organização social conhecida, montada justamente para fornecer mão-de-obra para tamanha obra. Esta entidade embrionária certamente pode ser considerada a guilda número um de arquitetos e pedreiros.

Além dessa inovação nas relações pessoais e de trabalho, Göblekli Tepe também foi palco da mais impressionante revolução empreendida pela humanidade: o advento da agricultura. O local exato onde o agricultor-visionário semeou o primeiro grão se localiza nas cercanias do grande templo.  Exames de DNA em diversas amostras de trigo atualmente em uso no mundo comprovaram que a variante selvagem de trigo existente próxima ao templo, que brota na montanha de Karac Dag, deu origem a praticamente todas as formas de trigo comerciais consumidas pela humanidade. Portanto, foi ali que os primeiros plantadores lançaram suas sementes, inaugurando a fase da lavra da terra.

Sobre a domesticação de animais, acredita-se que nos arredores de Göbleki Tepe foram criados os primeiro porcos selvagens destinados especificamente ao abate.

No momento em que a profética trindade templo simbólico, agricultura e pecuária rudimentar despontou no horizonte cultural, surgiram as condições necessárias para o crescimento exponencial da população e para a fixação de grandes contingentes em um único lócus geográfico, por muitos anos.  Surgiu, assim, a primeira cidade, não por acaso localizada nas vizinhanças do poderoso templo, um pouco ao Sul. Era a lendária Uruk, fundada na planície da Mesopotâmia – atual Iraque.

Outro salto espetacular na evolução humana também se originou nesta região: a criação da primeira forma de linguagem escrita, conhecida como Cuneiforme, pelos Sumérios.

O fato dos homens nômades terem se unido em uma estrutura social hierarquizada e ordenada a partir de grupos errantes com o objetivo de construir um monumental santuário foi uma descoberta inesperada. Esta situação criou um dos mais extraordinários paradoxos arqueológicos da história: acreditava-se que inicialmente surgiram as cidades, depois teriam aparecido os templos. Seria preciso haver uma mínima organização das comunidades para depois despontar a preocupação com as grandes questões e angústias filosóficas da alma humana. As comunidades nômades e sempre a beira da extinção jamais seriam capazes de unir valores suficientes para erigir estruturas arquitetônicas de grande porte, diziam os estudiosos. Este conceito de fragilidade dos grupos teve que ser revisto. “No início vieram os templos, depois as cidades e toda civilização humana moderna” é a conclusão da moderna Arqueologia.

            Por volta de 8.000 anos atrás, a comunidade resolveu encerrar as atividades no imenso santuário. Propositadamente, Göbekli Tepe foi sistemática e cuidadosamente soterrado. A razão desta medida radical não está bem definida. O aumento demasiado da população local, somado à multiplicação das vertentes religiosas, podem ter contribuído para o esvaziamento do culto ali praticado.

 

4-CONCLUSÃO              

 

            O ser humano, durante a maior parte de sua existência, viveu da caça e coleta, sem necessitar elaborar uma organização social mais complexa. Isto mudou com o advento do chamado “Pensamento Simbólico”, seguido pela construção dos primeiros templos. Estes eventos cristalizaram uma nova relação do homem com a realidade.

A criação das primeiras sociedades místico-filosóficas, que uniam os iniciados em uma mesma espiritualidade, gerou a eclosão da agricultura, das cidades e da própria civilização, representada pela totalidade cultural que nos envolve. Isto ocorreu porque o desejo de se congregar em rituais simbólicos, onde se buscam a transcendência e a alquimia entre todos os planos do universo, é uma das mais poderosas e inevitáveis forças da psiquê.  Esta sublime transubstanciação, que retorce o tempo e o espaço, nos conecta alegoricamente aos complexos ritos elaborados pelos primeiros construtores sociais e possibilita a reflexão sobre o funcionamento do macro e microcosmo. Esta é a razão fundamental de existir as ordens iniciáticas contemporâneas, fiéis herdeiras dos cultos ancestrais que operavam em épocas há muito esquecidas.

O poder que nos une em Loja já criou uma civilização. Agora, nos traz a certeza de que, apesar das turbulências das infindáveis gerações, a verdadeira essência de nossa fraternidade há de persistir incólume por toda eternidade.

 

Ir Carlos Alberto Carvalho Pires, M.M.

A.R.L.S. Acácia de Jaú 308 GLESP – cacpires@gmail.com

 

5-REFERÊNCIAS:

 

5.1-Akkermans, Peter “The Archeology of Syria: from complex hunter-gattereds to early urban societies (16000-300 BC)”, Editora Cambridge University Press, 2004;

5.2-Barker, Graene “The agricultural revolution in prehistory: why did foragers become farmers ”, Editora Wiley-Blackwell, 2004;

5.3-Corio, David “Megaliths”,Editora Random House UK, 2003;

5.4-Pires, Carlos A C, “Origens – Em Busca do Primeiro Maçom” Revista Maçônica “A Verdade”, Editada pela Glesp, Edição 461, Julho Agosto 2007;

5.5-Spivey, Nigel “How art made the world”, Editora Basic Books, 2006.

5.6-Wenke, Robert J “Patterns in Prehistory: humankind´s first three million years”, Editora Oxford University Press, 2006;

5.7-Site maçônicowww.maconariabrasil.wordpress.com