BREVES MEDITAÇÕES CARTESIANAS

por Carlos Alberto Carvalho Pires

De acordo com Bernardo (2010), O filósofo Renée Descartes (1596-1650 d.C.) estabeleceu o chamado método moderno, conhecido posteriormente como cartesiano, que se tornaria o padrão ou o modelo de raciocínio norteador da investigação científica e da pedagogia na modernidade. Tal paradigma se baseava, inicialmente, em duvidar de tudo que nos chega através dos sentidos – que podem ser enganados – e que são considerados como verdades. Ele considerava que todos os objetos que existem possuem uma forma de extensão, de movimentos e de qualidades sensíveis. As duas primeiras categorias se manifestariam independentemente do sujeito, tendo assim o que se chama de realidade objetiva, enquanto os predicativos sensíveis dependeriam da interpretação dada pela mente que pensa – só existem nas consciências, não tendo existência objetiva. Portanto, o que se atribui como verdadeiro a um ente, pode ser questionado.

       Levando-se em conta que esta dúvida deve ocorrer, afastamos todas as crenças, todos os ditos conhecimentos e preconceitos que estão permeados pelos estímulos sensiveis e ficamos apenas com uma certeza: a certeza da dúvida. Esta dúvida nos dá, deste modo, a comprovação de que existimos, pois apenas pode duvidar aquele que pensa, e quem pensa, existe. Nas palavras de Descartes, “dubito ergo sum, vel quod iem est, cogito ergo sum”, que podemos traduzir como se eu duvido, fica claro que eu existo ou simplesmente se penso, eu existo. Existindo um pensamento, é preciso haver um eu ou uma mente pensante. Essa possibilidade ontológica tem existência independentemente do objeto pensado. Aqui se evidencia porque Descartes pode ser considerado um filósofo dualista, uma vez que propõe a coexistência de duas entidades ou substâncias distintas e separadas, que ele denominou de substância pensante e substância extensa. A primeira se referiria ao sujeito pensante, ou também chamado de “eu”, e a segunda seria o objeto pensado ou objetividade. Estas duas perspectivas seriam absolutamente separadas e independentes, sendo que em primeiro lugar existiria o sujeito, e depois existiriam os objetos pensados.

       Nesta relação sujeito-objeto, é condição inequívoca que o conhecimento cartesiano concentra-se na subjetividade ou na mente pensante, pois esta que cria ou elabora o conceito sobre o objeto pensado. Em outras palavras, Descartes reconhece o ego ou o eu psicológico como uma substância em si, que ele chamava de “substantia cogitans” ou apenas “cogito”, independente ontologicamente dos entes externos à subjetividade. A partir desta substância subjetiva seria possível desencadear o processo de entendimento da verdade, independentemente da objetividade substantiva e da relação criada entre o sujeito e objeto – ou como diria Husserl, da consciência com o fenômeno. Esta afirmação, de que o pensamento criado pelo ser pensante seria a fonte de todo conhecimento, quando desenvolvido através do método cartesiano, foi uma das grandes contribuições de Descartes para a filosofia moderna. Isto fica claro nas considerações de Milovic (2004, p.67):

“…Descartes permaneceu com o mesmo paradigma do pensamento, a saber, a relação entre o sujeito e o objeto, só que aqui o fundamento do argumento é o sujeito, que tem de eliminar as dúvidas a fim de pensar a estrutura do mundo objetivo. Descartes afirma, assim, o racionalismo, ou seja, uma certa forma de realismo no próprio argumento” .

O sujeito, elaborando os chamados conteúdos mentais já trabalhados pelos critérios metodológicos, é quem gera a verdade, que não se baseia em nenhum predicativo do objeto externo ao “cogito” – ou seja, a verdade objetiva não existe.

            Um dos objetivos de Descartes – como fica claro nas Meditações – era atacar o ceticismo que buscava desqualificar a razão como sendo a origem mais adequada do conhecimento. Os céticos consideravam que razão não deveria ser fator essencial para o estabelecimento das ditas verdades universais, que podem nos trazer o conhecimento sobre todas as coisas. As ciências naturais, objetivas poderiam nos dar estas respostas. Assim, para o filósofo francês tornava-se preciso refutar esta colocação para restabelecer o valor da razão como um vetor da verdade.  Neste trecho, do § 2 da Primeira Meditação, o ceticismo é destacado:

“Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou em vez”. (Descartes, 2010)

            A forma que Descartes encontrou para isso foi absorver algumas concepções céticas e depois utilizá-los em favor de sua argumentação. Fez isso quando estabeleceu a dúvida hiperbólica sobre os entes em geral e sobre os conceitos matemáticos, e quando elaborou a idéia do chamado deus enganador ou do gênio do mal. Estas medidas visam colocar em cheque as ditas verdades advindas dos sentidos e da razão, ou seja, subjetiva e objetivamente. Para alguns, esta manobra, marcada aparentemente pelo apoio inicial mas que depois vai questionar o ceticismo , pode ser considerava uma espécie de “anti-epoché”.

            Nas Meditações, quando ele afirma que o homem é a coisa pensante e assim define a supremacia da razão – advinda da subjetividade pensante – sobre toda e qualquer forma de conhecimento, adicionalmente gerou o que se pode chamar de enfraquecimento do conhecimento objetivo do mundo, pois este se mostrava insuficiente para fornecer uma verdade baseada nas ciências naturais, sem contar com as formulações racionais da “res cogitans”.

            O ceticismo humano foi influenciado pelo relativismo que teve seus fundamentos estabelecidos por Protágoras, ao afirmar que “o homem é a medida de todas as coisas”. Por esta perspectiva, fica claro que todo conhecimento seria subjetivo, não existindo uma verdade subjetiva. O filósofo grego Pirro (século V a.C.) agregou ao ceticismo o caráter de método e afirmava que para buscar a verdade um homem deve fazer algumas perguntas.  A primeira é qual a razão real das coisas. A segunda, quais as disposições que devemos tomar a respeito disso. E a terceira e última, quais serão os efeitos disso ou dessa atitude. As respostas a estas questões seriam notadamente características da perspectiva cética. A resposta a primeira é que as coisas se equivalem e são indiscerníveis entre si, e não podem se revelar pelos recursos de nossos sentidos nem pela formulação de juízos. 

            Deste modo, não podemos confiar em nossos sentidos nem na razão, permanecendo todos sem emitir qualquer opinião e ficando assim no chamado estado de afasia ou de não se manifestar. Nesta situação, atingimos a “ataraxia”, que representa a postura de quem não se perturba frente a estas situações e que leva à “adiaphoria”, que é a completa indiferença. A não manifestação anteriormente citada – a “afasia” – leva à “epoché”, que é a suspensão de todos os juízos sobre as coisas. Nesta posição, uma desejável serenidade envolve as pessoas, e esta virtude só se atinge com a perda ou com a suspensão de toda forma de pretensão de se controlar as situações ou de se ter uma consciência plena sobre tudo que ocorre.

            Pela “epoché”, que implica na realização de uma manobra suspensiva, gera a chamada redução fenomenológica. Esta se caracteriza por uma mudança na maneira com que direcionamos nosso olhar ao mundo. Quando cessamos a operação de guiar nossos olhares para os entes ou para as coisas que estão no mundo, estabelecidos em si mesmos de maneia que seu ser ou sua antologia se reveste de uma plena inacessibilidade a nós, e começamos a nos voltar para as operações de nossas próprias consciências que permitem que elaboremos exatamente o que são tais seres, estamos realizando este procedimento de redução fenomenológica. O que estamos elaborando é uma perspectiva da realidade objetiva, quando o sentido que tais entes geram em nós é valorizado ou focado, em detrimento da atenção objetiva anteriormente enfatizada. Assim, também temos que considerar que nossa óptica fenomenológica vai ser influenciada pelo valor que atribuímos a tais objetos, de acordo com nossas experiências e impressões preliminares. Neste processo, nossa responsabilidade em relação a este processo valorativo fica evidente e inexorável.

            A redução fenomenológica husserliana difere da dúvida cartesiana pois busca um olhar diferente sobre os objetos, que devem se livrar dos elementos que conferem exatamente sua objetividade – como ocorre no pensamento de Descartes – que proporciona a idéia de um ente formado pela agregação de diversos sentidos. A chamada consciência natural desconhece a si mesma, e crê, assim, que não tem influencia na formação da realidade externa aos sujeitos pensantes. O mundo natural é ingenuamente aceito, em detrimento de se elaborar um mundo real que se consolida pela efetiva participação da consciência. A fé na existência de um mundo real é abalada pela epoché fenomenológica, e para que isto ocorra é preciso que inicialmente se tenha conhecimento desta condição, de fé ingênua, e isto é possível pela reflexão, e em seguida é necessário que haja uma mudança de postura acerca da teoria da existência, sem negar que esta perspectiva existe.

            Em resumo, as coisas que habitam o mundo são colocadas entre parênteses, fato este que torna possível que a subjetividade lance um olhar diferente sobre tais objetos, captando algo que nunca tinha sido visto ainda, porque a forma de se olhar foi alterada.

REFERêNCIAS 

BERNARDO, G. Epoché, disponivel em http://www.fcsh.unl.pt/invest/edtl/verbetes/E/epoche.htm, acesso em 11/11/2010.

DESCARTES, R. “Meditações”. Disponível em http://www.scribd.com/doc/26646221/DESCARTES-Meditacoes-Metafisicas, acesso em 12/11/2010.

MILOVIC, M. A questão do sentido: Husserl. Philosophos 9 (1): 63-79, Jan-Jun 2004, disponível em http://www.revistas.ufg.br/index.php/philosophos/article/viewFile/3220/3204, acesso em 12/11/2010.

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