Democracia e Capitalismo: conciliação possível?

por Carlos Alberto Carvalho Pires

A democracia é o regime político menos imperfeito jamais criado. A política exercida sob o viés da chamada democracia liberal, de acordo com Fukuyama1, é o sistema de organização social que finaliza a história evolutiva do homem, enquanto ser necessariamente comunitário. Não vai surgir nenhum novo projeto, em termos de estruturação da sociedade, que possa suplantar o ideal democrático em termos de sucesso no equilíbrio e manutenção da civilização.

                Analisando etimologicamente o termo democracia concluímos que significa algo como “governo exercido pelo povo”, diretamente ou por outorga eleitoral a uns poucos escolhidos – os representantes da massa populacional. Fica claro que todas as ações da classe dirigente devem ser realizadas visando atender as expectativas de toda comunidade, cuidando de suas necessidades básicas e garantindo o estabelecimento do bem comum. 

                Considerando que vivemos – pelo menos na maioria das nações – exatamente sob a égide desta forma de regime político, deveríamos nos sentir felizes por vivermos em uma realidade concreta permeada de ampla liberdade e justiça social.  Entretanto, percebemos que, para grande parte da população, existe uma sensação de total exclusão do processo sócio-político que determina os rumos dos países. A parcela alijada do sistema seria, de acordo com Marx e Engels2, a chamada classe do proletariado, e a camada que detém o poder seria a burguesia.

             Mas, se a política democrática representativa serve mais a uns poucos do que à maioria, o que se constitui em uma flagrante deturpação de seus objetivos principais, como se explica a perpetuação desta situação desfavorável às parcelas não pertencentes à classe dominante? Se a população percebe que pessoas escolhidas para comandar os destinos de suas vidas em sociedade atuam em descompasso com seus interesses mais legítimos, por que não toma uma atitude para afastá-las da vida pública, principalmente no momento das eleições?

              O que explica esta condição de subordinação tácita a esta força que domina a dinâmica democrática é a existência efetiva e atuante de um conjunto de procedimentos que visam desencadear a chamada alienação psicológica da maioria do povo do processo político-democrático propriamente dito. Estes instrumentos a serviço do poder geram uma configuração grotesca da idéia de governo exercido pelo e para o povo.                      Os cidadãos, infelizmente, não fazem parte diretamente do centro do sistema político – são agentes periféricos ou secundários na máquina capitalista, e se mostram totalmente alienados do valor e da importância de seu papel enquanto eleitores e participantes ativos desse processo de deliberação do poder a terceiros. Podem ser considerados meros artífices na manutenção do sistema, dóceis e submissos, contribuindo através de seu trabalho produtivo com a lógica do capital, é preciso que este esquema de alienação seja eficaz e coerente. Todos devem se sentir “felizes” e realizados em seus papeis de cidadãos politicamente engajados.

           A estratégia para sustentar este status quo apresenta diversos componentes que operam harmonicamente em uma complexa engrenagem que garante o domínio das massas. Podemos citar como exemplos desta máquina alienadora a onipresença da chamada mídia de massas, representada pelas emissoras de televisão e rádios e pela mídia impressa, que difunde conteúdos aleatórios e apartados dos grandes interesses nacionais. Também contribui para a alienação a institucionalização de inúmeros ideais sem sentido, como a necessidade de consumo desenfreado de bens materiais como sinal inequívoco de felicidade pessoal, o culto exagerado da estética do corpo e a busca pelo sucesso rápido, mesmo que sem qualquer mérito ou virtude individual.

            Em relação à macroeconomia transnacional surgiu a defesa do conceito de “livre-comércio”, da união de todas as nações pela defesa da paz mundial através de órgãos multilaterais, e do humanismo anacrônico – que nada mais seria que uma nova forma de “antropotécnica”3 . As políticas assistencialistas ou do “pão e circo”, o medo perante o propalado aquecimento global e pela iminência do “Armageddon”, a busca incessante pelas fórmulas de felicidade plena e da eterna juventude,  finalizam o rol de exemplos que bem expressam o modus operandi de acobertamento da verdadeira realidade, visando a dominação social em um mundo aparentemente livre.

            Nós sofremos e nos submetemos a essas contingências de forma consciente ou inconsciente, mas sempre no contexto da mais justa democracia.

 Referências:

1- FUKUYAMA, F. O fim da história e o último homem, Rio de janeiro: Rocco, 1992.

2- MARX, K.;  ENGELS, F. Manifesto comunista. São Paulo: Instituto José Luis e Rosa Sundermann, 2003.

3-MEWES, F. Regulations for the Human Park: On Peter Sloterdijk’s Regeln für den Menschenpark Revista Gnosis, Vol. VI, No. 1, p. 09,  Setembro, 2002 Disponível em http://alcor.concordia.ca/~gnosis/vol_vi/Sloterdijk.pdf, acesso em: em 21 jan. 2009.