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Cátaros – Aurora da Maçonaria?

por Carlos Alberto Carvalho Pires

(artigo original publicado na revista “A Verdade”, ano LV, Ed.  Jan/Fev 2007)

A-INTRODUÇÃO

Na idade das trevas, quando o espírito repressor de quem detinha o poder podia atingir limites inimagináveis , uma terrível Cruzada irrompeu no sul da Europa. As vítimas desta empreita foram os  membros de um pequeno grupo religioso tradicional, ortodoxo e voltado às mais antigas tradições cristãs. Estes homens eram os “Cátaros” – ou “Hereges” para os cruzados .O Catarismo, cuja origem e evolução ainda não foram satisfatoriamente explicadas , deixou como legado histórico um grande exemplo de luta e coragem , raramente visto em outros momentos. 

Vamos realizar, ao longo deste trabalho , uma breve e transcendental viagem no tempo . Voltaremos nossa imaginação até o final do século XII e início do XIII, em uma área situada  ao sul da atual França. Chamada de “Ocitânia” , esta região era limitada pelos Pirineus  e  pelo Mediterrâneo , ficando entre o reino de Toulouse e a casa de Aragão , na Espanha . Apresentando grande beleza natural , era povoada por uma comunidade feliz , tranquila  e extremamente avançada para a época , em termos de bem estar  e harmonia social .  Havia riqueza abundante e fartura  material  , condições raras na Europa medieval. Em termos políticos era uma oásis de liberdade, pois se tratava de um território praticamente independente de qualquer  poder central. O domínio papal  mostrava-se quase imperceptível, sem grande influência no destino dos senhores e dos servos.

Tudo caminhava em paz , até que uma hecatombe irrompeu em meio a este quase-paraíso na Terra. Aproveitando a existência do movimento fundamentalista cristão que ali prosperava, uma triste demonstração da mais agressiva crueldade humana  foi colocada em prática . Com as justificativas típicas de uma guerra santa , foi colocada em marcha  aquela que seria a maior carnificina de cristãos no mundo ocidental. Uma Cruzada terrível e sangrenta foi desencadeada pela Igreja.  Armados como defensores de Deus, os algozes  na verdade  almejavam a  incorporação política  da  região ao reino da França, além de garantir a manutenção do Catolicismo como  religião hegemônica.

Ao lançarmos luzes sobre os meandros que envolveram este triste capítulo de nossa História ,uma certeza inquestionável nos é apresentada  : a ascensão e derrocada dos denominados “hereges” foi um fenômeno extremamente significativo para todos que lutavam – e lutam –  pela liberdade de pensar e de agir . Isto porque os  ideais mais valorosos da Modernidade,  tais como liberdade , igualdade e fraternidade, foram forjados nas labaredas de eventos sangrentos e heroicos do passado, tal qual nos conta este capítulo da história, aqui relembrado . Portanto , ao estudarmos este  drama histórico e religioso , estamos estudando o próprio fenômeno de florescimento dos valores mais essenciais da dignidade humana.

B – PRIMEIRA VIAGEM: A IGREJA  

A Igreja de São Pedro surgiu por volta do século I na região da Palestina, como uma derivação do Judaísmo. Rapidamente se espalhou por todo Oriente Médio e demais áreas do Império Romano, como Ásia e norte da África. Em cada região a mensagem de Jesus era ligeiramente adaptada às crenças e tradições locais. Os grandes teóricos do Cristianismo, como São Paulo e São Jerônimo, aproveitavam a liberdade de culto proporcionada pelo Império Romano – até meados do século 4º –  para inicialmente atacar as bases do Judaísmo mais ortodoxo e em seguida todas as outas seitas e credos que proliferavam no vasto domínio latino.  Em poucas décadas Roma tornou-se o foco centralizador e irradiador da doutrina e do poder da nova religião hegemônica no ocidente.

 Nas diversas comunidades em que a nova religião começava a aflorar, a hierarquia e administração eram relativamente independentes umas das outras, mas sempre era possível observar a influência e o predomínio, em todos os aspectos, da já cristianizada Roma. Após a legalização do Cristianismo realizada por Flavius Marcellus Constantino I, por volta do ano 320 d.C., a pressão sobre os grupos chamados não-cristãos passou a ser exercida de forma severa, com perseguições, destruição de sítios  e demolição moral dos  símbolos das seitas concorrentes. 

Com a divisão do Império Romano em duas partes, o comando religioso também se dividiu, mantendo um líder em Roma chamado de “Bispo”  e outro em Constantinopla ,conhecido como “Patriarca” .  A língua oficial do Império Romano do Ocidente era o latim. Na porção oriental ainda predominava o grego, utilizado para transcrever os primeiros textos contendo os ensinamentos cristãos. Nesta fase, a outrora tímida seita emergente passou por um processo de expansão extraordinário.

No início, o exército cristão era apenas um entre inúmeros grupos que lutavam contra o poder estabelecido , almejando a quebra do “status quo” dominante. Esta vontade, obviamente, decorria do desejo de tomarem posse deste manancial de poder, que estava nas mãos dos políticos, dos militares e dos sacerdotes romanos. Este perfil se alterou em um período relativamente breve de tempo. De grupelho inexpressivo de baderneiros  a “maximus mandatarium” da casa-grande de  Rômulo e Remo,  a jornada foi relativamente rápida. Ao longo dos primeiros anos pós morte de Paulo o Cristianismo cresceu  vertiginosamente  entre as classes mais populares , pois apregoava a igualdade de todos perante Deus – inclusive de mulheres e escravos . Também alcançava as castas mais nobres, que apresentavam um comportamento extravagante , prometendo a salvação eterna através única e exclusivamente da aceitação dos dogmas apregoados. Com a entrada das elites na nova ordem, e com o enriquecimento da cúpula ,  o movimento  se tranformou : de instrumento de combate à hegemonia dos mais fortes , tornou-se ele próprio  um agente de dominação da população  .

A tomada dos locais sagrados do paganismo e das sinagogas, e a subseqüente instalação de sacerdotes cristãos exatamente nos mesmos templos/sítios,  fazia parte da política de abafamento das crenças locais . Para satisfazer as necessidades do povo, que se acostumara a freqüentar as sessões ritualísticas antigas, os líderes cristãos utilizaram uma velha estratégia  :  incorporaram os mitos, símbolos , paramentos e ritualísticas dos cultos abafados , transformando-os em “tradições” católicas . Incorporaram diversos deuses, datas e liturgias a seus próprios rituais. Este modus operandi fez muito sucesso no passado .Exemplo clássico destas absorções é o culto à Mitra , da antiga Pérsia. O festejo mitráico se transformou   numa festa estrondosa romana ,  comemorada na época do solstício de inverno. Era o “natalis sol invictus”. Em seguida, veio o Cristianismo e transformou a homenagem natalina  romana, que consagrava o renascimento do Sol , em uma celebração ao parto de Jesus. O mito primordial, ao deus menino persa, estava absorvido, digerido e metamorfoseado em ato cristão legítimo.

Entretanto , e a despeito de todo este empenho em fortalecer as novas bases espirituais , após a  fase de expansão inicial  do século I ao IV ,  a Igreja sofreu  grande risco à sua sobrevivência . Já às portas do século VI tal crise se mostrou como um eminente  cataclisma sobre as colunas de São Pedro.  Agravaram tal situação os movimentos migratórios em direção à Constantinopla e as invasões bárbaras. Ao mesmo tempo em que se fragmentava o Império Romano , a instituição eclesiástica, que crescera ao seu lado, também sofria os efeitos deste processo . O Papa exercia sua liderança com visível dificuldade , e o cisma da Igreja já demonstrava a precariedade da unificação espiritual em toda Europa. Importante lembrar que coexistiam várias igrejas distintas , como a Celta e a Grega , que também buscavam fortalecimento notadamente nos rincões mais afastados , onde Roma praticamente não exercia sua influência. Para piorar a situação, a Igreja Ortodoxa de Constantinopla se consolidava juntamente com o fortalecimento do  Império Romano do Oriente , que perduraria até meados do século XVI .

            Tornava-se evidente que era preciso buscar apoio de uma grande força centralizadora , que pudesse garantir militar e politicamente a unidade territorial do império e a hegemonia das idéias de Cristo sobre todas as  seitas  que germinavam na vastidão das terras de César . Tal  acordo  deveria ser suficientemente poderoso para , além de  sufocar todas as correntes teológicas concorrentes  , garantir a fidelidade cega de todos os súditos aos ditames cristãos.

A salvação do trono de São Pedro se cristalizou na figura de um rei franco ,  chamado Clóvis . Por volta de 486 d.C. , tal monarca havia anexado vários territórios , reinos e principados, conquistando a posição de mais importante mandatário da Europa em um curto espaço de tempo.  Um eventual acordo entre ele e o papado seria altamente benéfico para ambas as partes , pois daria legitimidade espiritual ao conquistador e garantia de manutenção e prevalência do cristianismo sobre todas as outras vertentes religiosas . E assim foi feito . O reino franco se expandiu anexando a maior parte da atual Alemanha , França e territórios adjacentes , e o processo de desintegração da Igreja foi estancado , invertendo-se a tendência de desaparecimento . Apenas a parte sul  , chamada à época de Ocitânia , permanecia praticamente independente , sem  influência de nenhum poder central. Esta situação de liberdade social , associada a uma inquietação quanto aos exageros e luxos dos representantes papais, favorecia o afloramento de novas idéias , voltadas para um Cristianismo mais fundamentalista.         

C-SEGUNDA VIAGEM: OS CÁTAROS

            A região da “Occitânia “ , hoje é denominada “Languedoc” – ambos os termos significando “terra da língua do sim”. O movimento fundamentalista cristão & pacífico , que ali surgiu,  considerava o exemplo de vida simples de Jesus , ascética e sem luxo algum, a base de sua doutrina .  Acima de tudo, a palavra de ordem era a  humildade. O desprezo à soberba, à arrogância e aos  valores materiais era plena. Os integrantes deste movimento foram chamados ,  pelos historiadores eclesiásticos , de  “cátaros-hereges”  ou simplesmente “cátaros” . Este termo é uma derivação de “katharoi”  , que significa puro, em grego .

            Considerado  uma heresia pela cúria romana  , tal movimento agregava integrantes de todas as classes sociais, sem distinção entre os sexos. Seu crescimento começava a incomodar o papado. ( lembremos que o termo “heresia” deriva do latim  haerenses  , que por sua vez veio do grego hayreses , que significa “ capacidade  de escolher” –  toda linha de pensamento que não seguia a risca os ditames de Roma , era considerada herética e passível de excomunhão , como primeira forma de punição espiritual , seguida de sanções físicas.

  Pregando o retorno ao cristianismo primitivo, desprezavam a intermediação de qualquer instituição terrena nas questões de fé, defendendo a ligação direta dos servos com o Divino . Argumentavam que não se apregoa , em nenhum momento nos evangelhos ,  a existência da Igreja  ou de qualquer autoridade  regulatória da espiritualidade das pessoas. 

            Seus integrantes se dividiam em duas categorias : os leigos , chamados de crentes ( pessoas comuns ) , e os “perfecti”   ou “bons homens”, que seriam os pregadores missionários, formadores da hierarquia da igreja cátara . Estes  trabalhavam em duplas , visitando as vilas levando sua mensagem. Para este papel era preciso receber uma espécie de ordenação,  realizada em cerimônia pública, chamada de consolamentum . Os bons homens viviam em pobreza absoluta , abstinência total e obediência a Deus e aos evangelhos. Os trabalhos eclesiásticos eram muito simples , pdendo ser desenvolvidos em qualquer local . Consistiam de  uma leitura breve do evangelho , seguida por um sermão , uma benção e uma oração. Como nos tempos de Jesus, eles diziam. Os crentes , em seu leito de morte , deveriam receber o consolamentum – um sacramento ministrado pelos bons-homens , assegurariam a entrada triunfal  de todos  no reino dos céus.

Como parte de suas convicções cristãs , negavam que o mundo físico pudesse ser obra divina, rejeitando a versão bíblica da Criação. Pregavam que Deus teria um caráter dúbio, tanto masculino quanto feminino. Deste conceito deriva a igualdade de direitos entre homens e mulheres nos diversos papéis exercidos, inclusive nas posições mais importantes na hierarquia cátara. Afirmavam que existiriam  dois deuses , um bom  , voltado ao mundo espiritual, e um mau relacionado ao material . Seriam polaridades complementares, uma dicotomia que satisfazia a todos e descontentava a verdade estabelecida. Mas não existiria inferno, pois todas as almas  , via consolamentum, se salvam  no final

Afirmavam que os desígnios divinos estariam além da capacidade de compreensão dos seres humanos, enquanto seres físicos. O absoluto seria francamente inatingível à experiência humana terrena . Para alguns , nesta colocação já podemos observar alguns princípios  das doutrinas de Kant e Hume , estabelecidas apenas no final do século XVIII.  A salvação viria em seguir o exemplo de Jesus, com uma vida simples, sem luxo nem ostentação, livre de qualquer vaidade relativa ao mundo material.

Portanto, de nada adiantaria a existência de uma igreja como forma de canalização da vontade de Deus em relação às questões seculares – esta talvez fosse a maior das heresias: afirmar que não haveria justificativa para a existência da estrutura eclesiástica. A busca do divino através de experiências místicas diretas, marcada pelo pensamento neoplatônico, era uma das principais características dos cátaros – tal colocação forneceu  munição pesada aos futuros acusadores , representantes do papa. Desejavam uma comunhão direta com o Criador, transcendendo o campo pessoal . Para isso teriam que atingir a sabedoria superior  , chamada de   “Gnose”  por muitas comunidades espiritualistas .

 Como principal texto doutrinário utilizavam o Evangelho de São João e um outro, chamado de “Evangelho do Amor”.  Realizavam obras sociais concretas, ajudando os necessitados de diversas maneiras , pois acreditavam que a fé só seria uma experiência válida se exercida na prática , não permanecendo apenas no campo teórico . Investiam, por exemplo, em campanhas de promoção à saúde e educação, sempre gratuitas . Neste ponto percebemos que  a preocupação com a filantropia, tão em voga atualmente ,  já existia nesta época . Seria uma forma de busca da  perfeição com ser humano ,ou de aproximação com o divino.

Exerciam a tolerância religiosa de maneira plena, respeitando todas as vertentes e possibiltando a convivência pacífica entre todos  que coabitavam a mesma região. Por não exercerem nenhuma forma de hierarquia , por respeitarem os credos diversos e pela união entre todos , podemos afirmar com certeza que exerciam fielmente os princípios de liberdade , igualdade e fraternidade , bandeiras muitas vezes defendidas por outros movimentos que viriam muito tempo depois deles. Em relação à Arquitetura, deixaram um grande legado . Construiram castelos maravilhosos e abadias grandiosas  em regiões de difícil acesso, nos cumes de montanha e perto de precipícios . Além de  proteger contra ataques , possibilitava  aos fiéis observarem  vistas maravilhosas das paisagens , a partir de suas sacadas  . Hoje tais obras são famosos pontos de turismo e visitação.

Revestido pelo caráter humanístico, aceitando todos indistintamente e pelo exercício pleno da  filantropia , tal movimento crescia vertiginosamente e começava  a incomodar as autoridades eclesiásticas .

D- TERCEIRA VIAGEM: A CRUZADA

Em 1.165 houve a primeira condenação formal a esta doutrina, realizada na cidade de Albi , localizada no Languedoc. Deste fato deriva o termo “Albigense” , utilizado para denominar  a cruzada e também o próprio movimento.

Pelo conjunto de idéias em franca disseminação  e pelas ações junto às comunidades , os chamados heréticos se tornaram alvo da atenção do papado. Inocêncio III convocou uma Cruzada, conhecida como Albigense ,  sob a liderança de Simon de Montfort no período de 1.209 a 1.224 , e depois comandada pelo rei Luis VIII , de 1.226 a 1.229 . Foi a primeira realizada para atuar apenas no continente europeu, visando abafar uma ação cristã genuína , diferentemente das cruzadas tradicionais contra mouros e judeus .

Em 1.209 , um contingente de trinta  mil cruzados se lançou rumo ao Languedoc, não apenas combatendo os cátaros, mas todos aqueles que se encontravam pela região , inclusive católicos simpatizantes moradores no local.

Na cruzada foram alistados todos os tipos de pessoas , como desajustados, desordeiros e mercenários. A violência contra a população foi extremamente severa e os registros da época nos mostram um horror e uma carnificina  sem igual na História Ocidental.

Apenas na cidade de Beziers, em 1.209 , mais de sessenta mil sucumbiram queimados ou esquartejados . Existe a lenda de que , às portas da cidade , os cruzados relutaram por um momento antes do confronto, ao perceberem que haviam muitos católicos não-cátaros e pessoas comuns pela cidade . E a população de crianças, mulheres e idosos era significativa. Mas foram incentivados ao massacre pelo prelado do Vaticano , ali presente, e que seria o futuro arcebispo de Narbonne. O  Sr Arnaud Amury, do alto de seu cavalo,  tranqüilizou os atacantes afirmando que matassem todos, “pois Deus iria   cuidar dos seus , posteriormente” . Em seguida a espada cravou firme nos pescoços e peitos das vítimas indefesas. As mulheres e crianças, separadas quando possível,  eram queimadas em fogo baixo, em fogueiras imensas nas encruzilhadas. Os homens degolados em “combates” desiguais, pois não portavam armas. Nas palavras de um cruzado, as ruelas da cidade pareciam veias abertas em sangue e sofrimento. 

Arrasada a cidade de Beziers, os cruzados marcharam triunfalmente para Carcassone , onde Simon de Montfort se apossou dos condados de Trencavel, Alzonne, Franjeaux , Castres, Mirepox , Pamiera e Albi. Em todos a matança foi massiva e cruel . A área ao redor das cidades de Carcassone e Toulouse foram completamente arrasadas. Muitos eram queimados vivos, em fogueiras coletivas com até quinhentos indivíduos. Mulheres, idosos , crianças e deficientes não eram poupados. O ânimo dos guerreiros papais era estrondoso , pois sabiam que se combatessem fervorosamente por quarenta dias teriam seus pecados perdoados e direitos legítimos aos produtos e riquezas originados dos saques.

Há de se registrar a postura solene e tranquila da maioria das vítimas ao se  encaminharem para o sacrifício , sem lamúrias nem choros, com sua fé inabalável servindo como sustentáculo espiritual neste momento de horror , mesmo quando a única certeza era de queimar lentamente em uma fogueira humana.

Por volta de 1.224 o rei Luis VIII , liderando os barões do norte , empreendeu uma nova cruzada, após a morte de Montfort em 1.218.  Esta empreita durou cerca de três anos e chegou até Avignon ,onde terminou o cerco aos hereges.  Em 1.229 foi realizado um acordo , conhecido como tratado de Meaux , entre o rei da França e os senhores feudais das áreas conquistadas, passando o domínio completo para a coroa. Terminava oficialmente a guerra.

Em cerca de quarenta  anos de campanha , centenas de milhares tombaram sob a espada e fogueira do clero , não se poupando mulheres , crianças e idosos. Os números são variados , pois a única fonte de registro oficial  pertence aos arquivos do Vaticano .  Alguns autores mencionam   500.000 a um milhão de vítimas, mortos diretamente em combate, nas fogueiras  ou agonizando em masmorras subterrâneas. E muitos pereceram por inanição e fome, pois passaram a vagar pelos campos sem abrigo, trabalho ou alimentos. Hordas de retirantes maltrapilhos zanzavam sem destino, aguardando apenas o último suspiro em uma beira de caminho ou sombra de uma acácia qualquer.

E- AS BULAS PAPAIS

Após arrefecer a fúria cruzada , os sobreviventes passaram a pregar à moda dos primeiros cristãos :  em catacumbas, cavernas  e nas florestas.  Isto porque  a Cruzada Albigense ,  apesar de sua brutalidade atroz   , não fôra  suficiente para exterminar todos os indivíduos,  nem tampouco os ideais cátaros.

            O fortalecimento da Igreja Católica e sua hegemonia como “representante único de Deus na Terra” ,  estavam garantidos no sentido lato , mas ainda haviam reminiscências que deveriam ser resolvidas. A perseguição deveria persistir, mas de forma pontual e inconstante  . Não mais seria possível nem interessante empreitar uma nova cruzada. Estava indicado o uso de  métodos mais “inteligentes” , sem grande estardalhaço, mas com a mesma crueldade dos anteriores, marcando com sangue a vontade soberana do clero.

            Rapidamente a pena  papal começava a traçar novas investidas.

            Em 1.231 , lançando a bula Excomunicamus , o papa Gregório IX refinava os métodos de obtenção de confissões dos hereges , criando os tribunais que seriam encarregados de tais missões. Chamados genericamente de  Tribunal do Santo Ofício ,  deveriam zelar pela manutenção da fé e pela submissão total  aos ditames papais de toda a população .Os que pensassem de forma contrária seriam tratados  como hereges, sujeitos a perda dos direitos espirituais e materiais, com risco de perda de propriedades , da liberdade e da própria vida-  sua e daqueles que os protegessem .  A nova diretriz  aproveitava para proibir a manutenção de bíblias nas casas de pessoas comuns.

Em 20 de abril de 1.233 , o mesmo Gregório IX lançou duas bulas  que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício .  Destaca-se a bula Licet et Capiendos , dirigida aos Dominicanos. Determinava que estes seriam os  inquisidores , ordenando que não poupassem métodos  para obter as confissões . Exigia  apoio do poder secular ,  privando os pecadores dos benefícios espirituais com emissão de censuras eclesiásticas severas. O conjunto de ações direcionadas a inquirir , ou questionar o comportamento dos hereges , ficou conhecido como “Santa Inquisição”, nome que ficou estigmatizado  como sinônimo de tortura, horror e irracionalidade .

Por volta de 1.252, o papa Inocêncio IV publicou o documento intitulado “Ad Extirpanda” , autorizando o uso de tortura física para se obter as confissõs. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase que resumia bem os ânimos da época : “os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas”.

Em decorrência desta liberação,  o mundo vivenciou uma fase negra da História , onde milhares foram torturados das mais diversas maneiras  até confessarem seus eventuais “crimes”, mesmo porque ao assumirem a culpa seus bens seguiam diretamente para os cofres do Vaticano .  O medo se espalhava nas pequenas comunidades . À chegada das comitivas do Tribunal  se seguiam as cenas de mutilações , de dor e sofrimento que culminavam com fogueiras humanas em locais públicos  . Os “julgamentos” eram aberrações jurídicas . Simples depoimentos poderiam condenar um suspeito,  enquadrando-o  por heresia, bruxaria , ou qualquer outro comportamento que não interessasse ao clero . Provas  materiais não eram importantes , e institutos como  amplo direito de defesa e habeas corpus  não existiam .

F-  A REAÇÃO LIBERTÁRIA

Estas manifestações tenebrosas de autoritarismo geraram um grande descontentamento  em algumas pessoas, que podiam ser chamadas, aos olhos contemporâneos , de  livres pensadores. Estes não aceitavam  este desrespeito fragrante aos direitos humanos, um instituto que ainda não existia no vocabulário político e jurídico da época. Do campo teórico, estes homens iluminados partiram para a prática, se reunindo em associações secretas que trabalhavam   discretamente em busca dos mais  nobres valores – como garantia da integridade física, direito à liberdade e manutenção da igualdade entre as pessoas. Nestas entidades , seria essencial a escolha criteriosa dos membros, para evitar que maus elementos ou espiões se infiltrassem. Os segredos que porventura existissem, deveriam ser  garantidos mediante juramentos severos. A  fraternidade  tinha que ser  perfeita entre todos, como se fossem irmãos de sangue. O objetivo seria proteger aqueles que fossem perseguidos pelo estado ou igreja, e aqueles que queriam ter apenas liberdade de pensamento. Portanto , o que transparece destes fatos é que do movimento cátaro , surgiu a perseguição sistemática e sangrenta de todos que ousavam ir contra o status quo.  E esta brutalidade, encabeçada  pela Santa  Inquisição, incentivou o nascimento de diversas sociedades de proteção mútua .

Após a Cruzada Albigense , certamente tais associações teriam surgido, principalmente na França, norte da Espanha e da Itália . Totalmente secretas e operando na “marginalidade”, abrigavam os remanescentes do Catarismo e de todas as outras correntes consideradas “heréticas”  , pelo poder central ( estado e Igreja ).  A partir de meados do século XIII , após o tratado de Meaux ,em 1.229 , tais instituições se alastravam discretamente pelas vilas e aldeões, requerendo de seus integrantes basicamente o que se pede aos maçons na atualidade : manter sigilo absoluto sobre todas as atividades , exercer a mais sincera fraternidade , ser um bom cidadão e bom “associado”e respeitar as regras da irmandade.

Estas agremiações foram evoluindo e , para melhor entendimento dos princípios que defendia , seria preciso elaborar uma base doutrinária para expressar seus objetivos . Para tanto, adotou diversas codificações poderosas , mitos antigos e metáforas de várias correntes filosóficas e religiosas pré existentes. Como simbolismo, nada melhor que utilizar os instrumentos da construção civil para materializar tais conceitos intangíveis, geralmente relacionados à moralidade , retidão, liberdade de pensamento, dentre outros.

Por volta do começo do século XIV , tal movimento receberia um grande fortalecimento , devido a eventos ocorridos envolvendo a mais poderosa ordem religiosa , o rei da França e o papa da época. Nos referimos à  Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão de  Jerusalém , ou simplesmente Cavaleiros Templários. Fundada em 1.118 , com o objetivo inicial de proteger as rotas de peregrinos cristão que se dirigiam à Jerusalém,  acabou se tornando uma rica instituição “bancária”, com verniz  religioso-militar . Devido ao seu fenomenal  patrimônio financeiro  , incluindo inúmeras propriedades e créditos milionários com reis e nobres,   foi  perseguida a partir do dia 13 de Outubro de 1.307, pelo rei da França Felipe IV , “o belo”, em associação com o papa Clemente V. Quase todos seus  membros foram presos e torturados. Foi oficialmente extinta em 1.312 , através da bula papal Vox in Exelsu . O último grão-mestre , Jacques DeMolay , foi queimado na fogueira  em 1.314 .  Para muitos estudiosos , os  cavaleiros que conseguiram escapar teriam se unido em associações secretas, principalmente na Grã Bretanha , França e Alemanha.

Com o passar dos séculos , enquanto as sociedades altamente secretas iam se reunindo esporadicamente e cumprindo seu papel de proteção mútua, vários profissionais das diversas áreas eram incorporados , desde que compartilhassem dos mesmos  ideais que amalgamavam todos em comunhão.  Ao mesmo tempo , as perseguições foram arrefecendo. A Igreja passava por novas crises , tal como a Reforma, seguida pela Contra Reforma , e o surgimento de estados laicos . Novas vertentes de pensamento, como o Iluminismo e as novas ciências , baseadas na razão e humanismo, começavam a minar paulatinamente as colunas do templo de São Pedro.

Em meados do século XVII , um evento favoreceria a futura publicidade das sociedades secretas. Surgia  uma associação  de pensadores e cientistas , chamada “Royal Society”, em Londres , por volta de 1.662 . Seu fundador  , um professor de astronomia da Universidade de Oxford e geômetra chamado  Sir Cristopher Wrein ,  ficaria conhecido posteriormente como  maçom ativo.  O ganho de notoriedade de tal entidade, associado a mudança do ambiente político , dentre  outros fatores, propiciaram a vinda a público daquela que seria a maior agremiação de grupos desta natureza, ocorrida em Londres, em Junho de 1.717 .

G- CONCLUSÃO

            A história dos Cátaros e a saga da origem da sociedades iniciáticas modernas  se  mesclam nas brumas do tempo e dos fatos. Como  desdobramento da crise Cátara, a Igreja resolveu sistematizar o combate àqueles que ousavam afrontar sua doutrina e princípios .  Esta política severa de controle sócio-religioso , baseada na força bruta , no autoritarismo e nos mais cruéis métodos de tortura, gerou reações na sociedade –  “adubou”   o terreno  para a semeadura dos germes de  grupos secretos  de homens livres de pensamento  , que necessitavam de proteção mútua.  Unidos em fraternidade, com segredos mantidos sob pesados juramentos, tais associações foram as  ancestrais  de muitas comunidades  iniciáticas atuais, que preservam muitos destes princípios da época negra de perseguições .

Podemos afirmar que , se o Catarismo não tivesse ocorrido – assim como  sua aniquilação sangrenta posterior –  talvez a mais perfeita ideia sobre a união fraternal entre os homens nunca tivesse existido .  Foi esta tese , perturbadora e fascinante , que nos levou a pesquisar  sobre o assunto  .

 

Referências :

1-     Camino  R. “Dicionário Maçônico “, Madras Editora, São Paulo , 2.006

2-     Baignet , M ; Leigh R ; Lincoln H ; “O santo graal e a linhagem sagrada ” Nova Fronteira , 1.997.

3-     Miranda H C , “Os cátaros e a heresia cátara” , Editora Lachâtre , 2.002.

4-     Quigley C , “Ä evolução das civilizações”, Editora Fundo de Cultura, Rio de Janeiro , 1.961

5-     Robinson  JJ , “Os segredos perdidos da Maçonaria”, Madras Editora, São Paulo , 2.005 ;

6-     MacNulty W K  , “Maçonaria: uma jornada por meio do ritual e simbolismo”, Madras Editora , São Paulo , 2.006 ;