Reflexões sobre a Angústia na Contemporaneidade – Heidegger

por Carlos Pires

(transcrição de parte da minha palestra com tema “ Tempo, Angústia e Morte”)

1-Introdução: o “Dasein”

Heidegger (1.889-1.976), em suas investigações ontológicas – quando deslocava o foco dos entes para a questão do sentido do ser – lançou o conceito de “”Dasein””. Significa “ser-aí”. Refere-se ao homem consciente de sua existência finita no mundo. O ser humano é o único ente que tem condições de se reconhecer como algo que foi lançado ao mundo de forma inexorável, inevitável e gratuita. O homem, para Heidegger, é imperfeito/incompleto justamente por isso. Somos apenas projetos, propostas de existência ainda germinais. Temos uma existência, a priori, indeterminada e incerta. Não há natureza humana. Não temos um roteiro pronto e inacabado a interpretar no teatro da efemeridade. A vida, que percorremos como um nômade que se arrasta a beira de um abismo, nos apresenta contingências e situações que determinam os maiores ou menores percalços de nossa jornada.

Por ter plena consciência desta situação – isto ocorre no momento em que o homem assimila a ideia de que está vivo e lançado ao mundo caótico – não há como escapar de um profundo desconforto. O homem sofre ao cruzar esta inflexão: o salto da perspectiva metafísica confortável para o mundo real gera estresse. Por isso que esta tomada de consciência, para muitos, nunca ocorre – gastam todo o seu tempo como se não vivessem nesta realidade. Seria melhor, para a maioria, não adentrar aos meandros do ser. Sofremos injustiças, fracassos, derrotas, a ação do tempo com suas doenças e rugas, a decadência geral e por fim nada mais resta exceto a morte. Heidegger cunhou o homem como sendo um “ser-para-a-morte”. O homem seria um ser temporal que tem como meta, o padecimento. Esta é nossa sina. Apesar das utopias de felicidade e alegrias da modernidade – paradigmas de vida boa que floresceram em nossa imaginação, grosso modo, a partir dos séculos 16 e 17 – somos seres sem a graça natural ou divina democraticamente distribuída entre os outros entes. Superando ou sendo derrotados pelos obstáculos, nossas marcas de nascença são a incerteza e a imprevisibilidade.

2-O Nada

O despertar da consciência para a vida traz a única certeza: não existem certezas. Fica claro que a vida não tem sentido. Para onde vamos? Não sabemos. Para que servimos? O silêncio é a resposta. Há algum estofo teleológico no ser do humano? Há alguma finalidade em respirarmos, acordarmos todo dia, lutarmos por um lugar ao Sol? Não há. Só existe uma coisa. O nada. O nada é uma sombra que percorre os céus, antes azuis, de nossa existência. O nada significa a aniquilação da realidade, drama que ocorrerá no final dos tempos, apesar dos profetas de auto-ajuda dizerem o contrário.

O nada é o futuro de todos. “Depois disso só o silêncio”, sussurra Hamlet antes de desfalecer. Ele estava frente a frente com o nada. O nada é silencioso, frio, insensível , irreversível, sem cores nem cheiros, e é eterno. O ocaso se positiva na forma do nada. Se você somar seu tempo de vida ao tempo infinito, o resultado é o mesmo – conclui-se que você é irrelevante para o tempo e espaço. O ocaso nos engloba e engole, e isto apenas o “Dasein”, com sua plena consciência da vida, pode antever.  Obviamente, tal desígnio nos inquieta, consciente ou inconscientemente. Felizes aqueles que não tem esta percepção – como os outros entes da natureza, as crianças e os loucos.

O nada vem acompanhado de uma indiferença na qual mergulhamos, onde nada é dito ou ouvido, onde não há muletas nem escoras para nos apoiarmos. Flutuamos no limbo, no éter sombrio e obscuro da transcendência atemporal. Esta é a experiência plena do vácuo. O homem mergulha até o último átomo neste buraco negro, mas não entende esta experiencia, não há palavras que a expliquem. O nada é indefinível. O nada não se contrapõe ao ente. São complementares. O nada faz parte do ente, formam a mesma essência. O nada está acima do ser, como se fosse um véu ou uma venda. Abaixo do nada surge o ser – que se apresenta mostrando exatamente tudo aquilo que será aniquilado pelo nada. O nada é a sina, o destino, o final da escada. Heidegger, em sua concepção de “ser-para-a-morte” , considerava que o ser e o nada determinam a totalidade de nossa existência. E decorrente desta constatação, somente o homem elabora conjecturas como : “por que existe o ser e não simplesmente existe o nada (..)toda a nossa existência perde o sentido diante do nada”.

Heidegger afirmava que “ o mundo surge diante do homem destruindo todas as coisas particulares e apontando para o nada”. (Heidegger apud Chauí, 1996) . O homem , enquanto ser-no-mundo, não existe em separado do mundo. Mundo e homem forma a completude da humanidade. Um ente humano que não apreendeu sua condição de estar no mundo, é um ente incompleto.

3-A Angústia

A totalidade do ser humano é representada pela angústia. Um homem sem angústia não se encontra no mundo, está em uma perspectiva metafísica completamente alienada do real. Assim, a angústia é uma experiência ontológica, vai além de uma mera sensação psicológica. Tem a ver com o ser, com a totalidade da noção de existência. O ser completo do homem revela-se, mesmo que de forma sutil e fugaz, na angustia. Na angustia todas as particularidades e peculiaridades desaparecem. Tudo fica igual. E tudo perde o sentido. Neste momento apreendemos o vazio, o nada.

A angústia é elementar, ou seja, é onisciente/onipresente na alma humana. Estabelece a verdadeira condição de ser. A angústia não é decorrente do medo da morte. A angústia vai além. É a sensação ou percepção mais profunda de nossa finitude, e isso nos amedronta. Dentre todos os entes, fomos os únicos escolhidos para ter esta exata noção, e isto nos leva a ter cuidados, a nos preocupar incansavelmente com a nossa sobrevivência. E estes cuidados parecem aumentar com a idade.

4-Na Contemporaneidade

O pensamento de Heidegger, na contemporaneidade, se reveste de grande valor como uma ferramenta que pode auxiliar na compreensão das razões ontológicas da chamada “crise existencial”, que assola grande parte das pessoas no século XXI. Existem índices alarmantes de casos de depressão, de tristeza profunda e de infantilização estética/psicológica de adultos. Será que estes indivíduos estariam, a luz da contemplação heideggeriana, implementando uma conduta no sentido de simplória e aparentemente não enfrentar os confrontos da vida temporal e fugaz? Exatamente por estes sujeitos terem plena consciência de que suas vidas, seu “ser-no-mundo” é nada mais nada menos do que o “ser-para-a-morte” ,eles fogem dessa realidade. O real traz um incômodo insuportável que os obriga a implementar estratégias de escape. Devem fugir daquilo que os incomodam, que lhes causam dor. Uma forma de dissociação cognitiva coletiva parece estar em andamento, no ocidente. A questão é: quais as estratégias para driblar esta angústia? E quais os riscos para quem se aventura por um destes caminhos utópicos, rumo a uma confortável metafísica efêmera?

5-Preenchendo o Vazio

Existe uma quase inevitável necessidade, no contexto heideggeriano, de se tentar aplacar a dor dilacerante que as pessoas sentem pela constatação de que estão mergulhados na mais movediça angústia. Ou seja, para caminhar com esta sensação de vazio de uma maneira tolerável, uma das formas de fuga deste desconforto é tentar preencher este vácuo com qualquer coisa que seja. Qualquer realidade é menos dolorida do que a falta de realidade. Há infinitos atrativos estereotipados de conduta e de “way of life” que garantem a acobertação da verdade crua da vida. Tais apetrechos, muito difundidos na cultura de massas, são apresentados pela mídia em escala global. Sim, falamos aqui exatamente do consumismo, da prática de ideologias ou de bandeiras metafísicas que impõe padrões de comportamento que tentam disfarçar o imperativo inexorável do “Dasein”. Os mestres da persuassão garantem que podem reduzir a nossa dor, dizendo: “ajam assim, façam isso, comprem aquilo, ergam tal bandeira, e sejam felizes”. Ou seja, prometem uma redução na angústia existencial se usarmos o sabonete A, se dirigirmos o veículo B, se dissermos “eu te amo” dez vezes por dia ou se entrarmos para o GreenPeace – quem sabe abraçando uma causa humanitária, defendendo baleias, sendo vegetariano, nossa vida ganha uma perspectiva imortal? Na verdade, não compramos os produtos/posturas em si – desejamos a sensação de conforto que tais hábitos prometem repassar às almas dos pobres mortais. Na melhor das hipóteses, teremos uma sensação de paz transitória como uma vela, que queima o tempo de uma vida (breve),  apenas por algumas horas ou por um final de semana festivo.

6-Fugindo de Si

O homem muitas vezes foge de si mesmo – ou tenta fugir. Isto porque tem medo de ser um ente singular, mesmo que dilacerado pela angústia da consciência de sua finitude. Se olhar no espelho pode ser tarefa inglória. O sujeito, então, vai em busca de modelos estereotipados, buscando ajustar a sua vida medíocre a vidas paralelas, que para ele refletem uma condição de menor-dor existencial. A primeira dificuldade nesta opção é que outras vidas tem outras demandas, e as corruptelas existenciais derivadas destas tentativas não acalmarão os tsunamis de suas peculiares necessidades pessoais. A busca por coisas, cargos e láureas que trazem felicidades para terceiros, nada significam para o imitador. Não reduzirão a sua tristeza mais profunda.

Esta opção de se travestir em diversos papéis, como se vivessem em um teatro real e perene, confere um perfil inautêntico ao ator canastrão. Sua biografia será corrompida. Ou não haverá uma biografia. A identidade se pulverizará. Se não é um, não é nada. A pessoa foge do nada mas acaba caindo exatamente no nada. Ser singular representa assumir uma identidade e seu destino como um ente no tempo. Assim, essa manobra para contornar o sofrimento da efemeridade, implica em um efeito de impessoalidade.Essa impessoalidade, como opção de vida, mostra-se ser uma via simples e aparentemente indolor – assumir um mimetismo referente a outra vida representa um atraente torpor à angustia pessoal, mas não funciona – lembremos que a angústia faz parte de nossa essência e portanto é inseparável de nós. Em outras palavras: o homem se camufla no meio social, reproduzindo em si as características de outros, desaparece como ser-em-si e torna-se um objeto xerocado medíocre. Como ninguém imita um fracassado, esta empreita implica uma na tentativa charlatanesca de auto-impor uma imagem de sucesso social, profissional, sexual, familiar, fraternal, financeiro e principalmente de estar gozando uma “felicidade” autêntica (nem se for apenas estampada em posts nas redes sociais). Se você fizer uma breve avaliação das pessoas que convivem em seu meio, notará que esta situação é mais frequente do que se pensa. Quantas pessoas reproduzem discursos e falas dos outros? Quantas defendem causas variadas sem ter a mínima noção do que se tratam, apenas porque fica “elegante” agir assim? Quantas frequentaram cursos sem ter a mínima aptidão para a formação obtida – fizeram porque queriam um título “bonito”, ou alegando que  “todos fazem, por que eu não farei”? Quantos tem cachorro “de raça” mas no fundo detestam e tratam mal os bichos. Quantas viajam para Paris apenas porque dá um ar sofisticado a sua vida banal, apareceu na novela ou porque fulano e beltrano foram? Os exemplos vão ao infinito.

Além desta tentativa de driblar o “ser-para-a-morte”, interpretar um canastrão no palco da existência confere um ganho extra. É um ganho narcísico. Ao não se assumir como uma identidade, além de fugir da dor do tempo que se esvai, a pessoa foge da dor de sua própria mediocridade. O indivíduo se enxerga, com todos seus problemas e limitações. E esta constatação não lhe traz alegrias. Pelo contrário. Então, se mostrar ao mundo é, para ele, tarefa repugnante. Todos que copiam vidas de outros, querem fechar os olhos dos outros para si. Não querem que o vejam como ele realmente é. Então, a manobra certeira (ou quase) é se parecer com dterminados “outros”, que demonstram beleza, força e disposição para a vida. Deste modo, talvez os indivíduos não percebam suas próprias trincas e, com o tempo, a própria pessoa passa a não se enxergar mais, deixa de se ver como um ente fraco e banal – como todas as pessoas, no fundo, são. Observe como aqueles que tem posturas mais “ao sabor do mercado e das pressões sociais” são os mais inseguros, os que mais ficam na defensiva, os mais instáveis emotivamente, ou seja, são as mais despreparadas para enfrentar a cruel certeza da efemeridade e do vazio.

7-A Liberdade

A plena consciência de estar vivo requer a necessidade de dar sentido a este deserto existencial, de projetar-se no futuro mesmo sabendo que não há nada diferente do inexorável vácuo infinito. Muitos querem driblar, mesmo que fugazmente, a noção do “Dasein”. Poucos não se importam com isso – enfrentam as contingências da existência. Em uma linguagem comum, são aqueles que tem “força de viver” – os outros seriam os fracos, esmagados pelo pavor da vida efêmera, seriam como aleijados simbólicos, que precisam de muletas para seguir respirando . A indeterminação do destino e as aberturas que surgem a cada momento possibilitam algumas manobras no sentido de se marcar uma identidade no caos. São estratégias de querer ser , ou de continuar sendo. Sem anestesiar a terrível temeridade diante do vazio, sem sonhar com a busca dos céus, como Ícaro. Mesmo assim o Homem deseja ir além do ente, luta por dar sentido a vida, mesmo sem ter noção de verdades absolutas. Nesta empreita o Homem é livre – como não há uma natureza humana, navega pelas asas da liberdade. O homem, enquanto projeto embrionário, goza de liberdade. Ele se abre para a transcendência. Isso só é possível após a revelação do nada ao homem. Ou seja, o homem só é livre se tiver a constatação exata de sua condição de ser-no-mundo, de que está condicionado à efemeridade e de que o nada será o senhor de seu destino. Esta clarividência , de que em suma o ser humano é o nada, lhe dá a liberdade. Ele assim vai atrás de algo que vai além de suas contingências, do eterno vazio sem sentido que é a vida humana. Eis que surge a questão: mas como , na prática, exercer esta liberdade? O homem, se deseja ser livre de maneira efetiva, deve concretizar uma história própria, uma biografia, uma antropologia pessoal, viável apenas através de suas livres escolhas e opções. Tem que fugir dos modelos e padrões emanados das infinitas fontes de condicionamento que afetam a grande massa. O preenchimento do vácuo e da dor existencial surge da autenticidade de uma vida singular. Decorre de percorrer a jornada do chamado caminho da individuação, ou do autoconhecimento de si mesmo, sem se deixar dominar pelas mimetizações e adaptações interpessoais que decorrem da vida em sociedade. O homem buscando um caminho pessoal, autêntico, buscando se encontrar com sua totalidade e fugindo da indiferenciação da vida cotidiana banal, pode transcorrer pela vida sem ser dominado/paralisado ( como se vislumbrasse a cabeça da medusa diariamente) pelas contingências , rumo ao seu destino. Ele não é uma caricatura teatral, um camaleão vulnerável aos estímulos do meio. É o protagonista de sua própria vida individual, consciente de sua fugaz existência, mas que segue em frente sem destino nem planos traçados a priori.

9-Conclusão

O pensamento de Heidegger apresenta uma visão de mundo, da realidade e de nós mesmos que nos fascina. Suas concepções fazem eco no mais profundo âmago de nossa existência, e são objeto de debates acalorados em todas as escolas filosóficas contemporâneas . Que estamos no mundo, que a vida é efêmera e que o futuro é incerto, obviamente todos sabem. Mas a forma como ele disseca, com seu afiado bisturi ontológico, esta nossa contingência, é original e inquietante. O “Dasein” nos é familiar, está conosco desde os primórdios, e conosco ele se extinguirá, com toda angústia agregada a sua essência. Heidegger se acomoda, com honras, no panteão dos grandes pensadores – mesmo com a certeza da hegemonia do infinito vazio em um futuro breve, suas ideias brilharão em meio ao vácuo, até o final dos dias.

Carlos Alberto Carvalho Pires

Bibliografia:

CHAUÍ, Marilena. Heidegger, vida e obra. In: Prefácio. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

HEIDEGGER, M. Que é Metafísica? Os pensadores. São Paulo: Nova Cultura, 1996

______.Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcanti. Petrópolis: Vozes, 1989a.

_____- Introdução à metafísica. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.