TEMPLOS À VIRTUDE

“Candidato, o que compreendeis por Virtude?”

(passagem da Iniciação aos Ritos de Elêusis, na Grécia antiga)

1-Introdução

O conceito de virtude se reveste de grande valor. A virtude é tema relevante para todos os homens que desejam vivenciar, na prática, uma convivência reta no seio de sua comunidade. Ser virtuoso significa ser um modelo de cidadão, representa o exemplo a ser seguido – seu caráter e suas posturas refletem a vida ideal, o fluxo e refluxo do bem e da justa felicidade.

O caminho da bem aventurança, porém, nem sempre foi o mesmo. Ao longo das eras o paradigma do bom-homem foi se modificando. No universo Grego, no mundo Cristão, na Modernidade e na Pós Modernidade ser virtuoso tem, strictu sensu, um significado distinto. Nossa proposta nesta breve peça é investigar exatamente estes quatro momentos históricos que definem a virtude, iluminando assim um pouco mais as nossas concepções sobre este sublime e fascinante tema.

2- A virtude para os Gregos

A areté ( virtude em grego) estaria relacionada aos talentos individuais e ao pleno gozo de uma vida feliz, que eles chamavam de eudaimonia. A explicação para esta visão de mundo é simples. Eles acreditavam que o mundo em que vivemos, chamado por eles de Cosmos, seria perfeito. O universo se definiria como uma imensa obra-prima, fruto da vontade de um princípio criador que arquitetara um projeto justo: tudo que existe teria uma finalidade a cumprir. Isso seria válido para todos os entes e para os infinitos fenômenos da natureza. Nada teria sido traçado por acaso na prancheta do criador – cada pincelada, linha,tijolo, movimento, enfim, tudo que houve, há e haverá carregaria em si uma razão para existir.

A harmonia deste complexo sistema seria garantida por uma lógica própria, de difícil interpretação para os homens, chamada de logos racional. O logos faria tudo funcionar de forma justa: cada integrante exerceria efetivamente suas atribuições. Assim, não haveria opção de vida alternativa, pois cada ser tem seu destino. Um rio que flui para o mar, um pé de acácia que germina e floresce ou um bode que vive nas montanhas fazem tudo isso não por vontade própria, mas porque é seu papel no universo. Uma peça que não se encaixasse no projeto seria uma hybris (um simulacro ou desvio).

Dentre todas as criações existentes, diziam os gregos, haveria apenas uma espécie que poderia decidir se cumpriria ou não o seu destino: o ser humano. O homem teria condições de navegar contra a sua natureza. Isto ocorre porque a razão de existir de cada indivíduo no Cosmos não é tão evidente como ocorre com os outros entes naturais. A maioria não tem a menor ideia de quais seriam seus verdadeiros talentos, ou apesar de conhecê-los, por uma série de fatores, não os exercem na plenitude. Conhecer seus dons, suas aptidões, suas qualidades seria a missão primeira, evitando-se assim a hybris – seria o caso, por exemplo, se Mozart optasse por ser um comerciante, Van Gogh um alfaiate ou Darwin um pescador.

A forma virtuosa de viver ordenava, portanto, que todos descobrissem para que vieram ao mundo ( o autoconhecimento) , e que em seguida exercessem seu papel com força e vigor, cumprindo o seu destino, seja ele qual for. Os talentos foram dados para que cada ser humano possa desempenhar sua função no grande projeto do universo, como pedras polidas encaixadas em uma imensa obra arquitetônica.

3-A virtude para os Cristãos

A virtude para os cristãos tem outro significado. A questão dos talentos e de seu pleno exercício nada influenciariam na definição do que seria a vida boa. Isto porque os talentos, como tudo que há, teriam origem em Deus, e portanto não teriam qualquer relação com a definição de virtude, que seria um qualificativo moral pessoal. Mesmo um sujeito despojado de qualquer dom teria grandes chances de ser considerado um poço de virtudes, em comparação com o mais talentoso dos homens.

Para a doutrina cristã o que importa agora é o acesso à cidade de Deus. A vida aqui na terra, no mundo sensível, seria apenas uma preparação para o que ainda viria: a chegada ao paraíso celestial. O caminho livre para o éden dependeria exclusivamente das condutas do fiel, notadamente se exerceu ou não alguns hábitos e práticas formuladas por Deus. Estas condutas seriam as virtudes teologais: fé, esperança e amor (caridade). E secundariamente há as virtudes cardinais, instituídas pelos homens: prudência, temperança, justiça e fortaleza. Assim, a ordem do dia agora é a crença em Deus, a esperança em perspectivas melhores no futuro e o bem cuidar do próximo. O modelo perfeito de vida seria o de Jesus Cristo ou dos Santos. Quanto mais próximo o fiel, em seu cotidiano, estiver destes paradigmas sagrados, mais virtuoso será.

4-A virtude na Modernidade

Em meados dos séculos 15 ao 18 a ideia de virtude se alterou novamente. Não se falava mais em talentos a serem aproveitados em um cosmos qualquer, nem em pautar uma vida inteira pela fé, esperando a redenção em um paraíso transcedental. O homem moderno chegou a conclusão que em ambas as versões anteriores sobre o que seria o modelo de vida a ser seguido, uma figura havia sido esquecida: a subjetividade de cada ser humano. Em outras palavras, o homem havia descoberto o “eu”. A instância da individualidade, da identidade, da mente pensante cartesiana que questionava a tudo e a todos, aflorara no esplendor do século das luzes. Tal qual o próprio escultor de sua persona, o sujeito autônomo seria uma espécie de princípio criador de si mesmo.

O novo ethos representava uma libertação de todas as formas de tutela ou de concepção metafísica: o homem como sujeito teria a “força” suficiente para gerar todo sentido e para mostrar, com “sabedoria”, o caminho da vida plena. A vida bela agora seria exclusividade do indivíduo especulativo, pois sua amplitude de pensamentos o tornaria completamente livre. Neste contexto forjou-se a concepção moderna de Liberdade.

A liberdade especulativa seria inerente a todos os homens, pois todos tem a mesma capacidade de questionar. Livres e iguais, os primatas implumos forjaram então mais um conceito, tão caro à Modernidade: a igualdade.

Uma sensação típica desta época, em que as pessoas se achavam “sem pai nem mãe”, pois as tutelas anteriores derrocaram inexoravelmente, era o sentimento de orfandade. Como irmãos órfãos que só tem uns aos outros, jogados em um mundo áspero e frio, nada mais restaria nesta condição de abandono a não ser uma união praticamente indissolúvel entre os deserdados. Assim, junto aos novos conceitos de liberdade e de igualdade, sobreveio também a união fraternal entre os novos irmãos.

5-A virtude na Contemporaneidade

Na Pós-Modernidade (meados do século XIX até a atualidade) vários fatores levaram à derrocada dos principais valores do Iluminismo. Tivemos, em síntese, a crise moral da ciência e da razão enquanto vertentes moduladoras da boa vida, a queda dos regimes autocráticos e a ascensão da burguesia, a revolução industrial e o surgimento das sociedades de consumo, a desilusão com as ideologias, a expansão exponencial dos meios de comunicação e dos sistemas de trocas de informações pela mídia de massas e pela internet.

Vivemos agora a plenitude da chamada sociedade pós-industrial e de informações. A produção de bens e serviços é absurdamente variada e dinâmica, apresentando novidades a cada instante, e as informações circulam por sistemas tecnológicos e em volumes de dados jamais imaginados pelas gerações anteriores.

Neste mesmo ritmo a definição de virtude novamente foi revista. Mas, ao invés de surgir uma nova virada copernicana no conceito virtuoso, o que se percebe é exatamente o oposto: todas as três maneiras anteriores de se definir o que seria o modelo exemplar de vida em sociedade foram agrupados, somados ou reciclados em um modelo totalizante. No mundo grego o homem virtuoso era aquele inserido no mega-projeto do cosmos racional. No mundo cristão o que valia era a acomodação do fiel na trilha em busca da cidade de Deus. No mundo da liberdade, da igualdade e da fraternidade era a razão a fonte da virtude mais pura para os homens de bem. E na Contemporaneidade o homem virtuoso seria aquele que consegue, de maneira harmônica , conciliar os três paradigmas anteriores em suas condutas e posturas cotidianas.

Talvez o que explique esta nova perspectiva seja a explosão exponencial da ânsia por consumo, surgida nesta fase, que faz não bastar uma única tradição ou doutrina (seja ela a grega, a cristã ou moderna) para explicar o caminho do bem. O homem virtuoso contemporâneo deve, portanto, ter talentos, ao mesmo tempo tem que manifestar uma espiritualidade e não pode deixar de lutar por sua individualidade. Mas tudo isso dentro da perspectiva do efêmero, onde nada é muito complexo ou permanente. Os talentos não precisam ser magníficos. A fé pode ser relativa e ecumênica. E a subjetividade mescla o desejo de pertencer a grupos associado à vontade de se firmar como um ser singular.

CONCLUSÃO

Os valores mudam ao longo do tempo, e da mesma forma o conceito de virtude sofre alterações sutis, em certos momentos, e radicais em outros. Muitas vezes os paradigmas de virtude de uma época são exatamente os paradigmas dos vícios em outras.

Para investigarmos se realmente estamos trilhando pelo caminho do bem, devemos sempre questionar qual seria a verdade por trás dos infinitos perfis de virtude. Sendo a busca pela verdade a síntese da missão filosófica, quando nos aproximamos um pouco mais dela estamos, em tese, nos aproximando um pouco mais da vida virtuosa, independentemente do tempo e do local onde estivermos.

(palestra apresentada nestes moldes, mas ainda restam pequenos ajustes no texto. )

Carlos Alberto Carvalho Pires.

Referências Bibliográficas

1-AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Trad. de Oscar Paes Leme. São Paulo: Editora das Américas, 1961. v. 1, 2 e 3.

2-ARISTÓTELES.Ética à Nicômaco.São Paulo. Nova Cultural: 1996.

3- HABERMAS, Jürger. Pensamento Pós-Metafísico. trad. Flávio B. Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.

4-KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela – Lisboa: Edições 70, 2007.

5-MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. tradução de Sérgio Milliet. 2. ed. São Paulo: Abril, 1980

6-MORA, Ferrater J. Dicionário de Filosofia. Tomo IV (Q-Z). Edições Loyola, São Paulo, 2001, VIRTUDE, P. 3028.