A Tolerância ” parte I , por Carlos Pires, M.I., 33.:

Tolerância vem do termo latino “tolerare”, que significa suportar, sustentar ou aguentar uma realidade que se apresenta a um indivíduo que representa e causa, para ele, um profundo desconforto, estresse, tristeza, dor ou mal estar. A tolerância é considerada uma virtude moral, e surgiu como conceito formal a partir do Iluminismo, consolidado notadamente após as obras “Carta acerca da Tolerância” lançada em 1689, de John Locke (1632-1704) e “Tratado sobre a Tolerância”, do ano de 1763, de Voltaire (1694-1778). O foco maior nesta época era em relação a chamada tolerância religiosa, uma vez que as guerras violentas entre católicos e protestantes ainda custavam muito sangue e sofrimento nas terras européias. Atualmente a abrangência do termo se ampliou – vai além do contexto da fé chegando às questões de opção sexual, de gênero, de etnias, de condição sócio-econômica ou intelectual, de idade, de aparência física, de elementos culturais e de todo e qualquer componente relativo às pessoas que convivem contingentemente em sociedade e que se expressam nas mais variadas formas de linguagem. O objetivo desta peça é propor e estimular uma breve reflexão em relação a esta ideia tão difundida, defendida e alardeada por muitas pessoas nos três ou quatro os cantos do mundo e por tantas agremiações sociais, mas que tem sua efetividade prática, em muitos casos, comprometida por envolta num véu de incompreensão, retórica ou

1-Aspectos históricos

 (como início de nossas ponderações, vamos considerar apenas a intolerância religiosa). Para analisarmos a tolerância no contexto histórico, é interessante considerar uma pergunta muito simples: a intolerância religiosa sempre foi a regra entre os homens, desde os tempos primordiais? Esta  seria um traço indelével da psiquê humana? Para muitos a intolerância se enquadraria efetivamente na categoria dos chamados afetos humanos. Assim, seria uma condição inevitável ou inexorável a todos que convivem em uma sociedade qualquer – ou seja, independente das características próprias desta comunidade, em termos geopolíticos ou sociológicos,  este pathos seria um elemento comum e presente o tempo todo. Mas, indo contra esta hipótese, esta condição pode não corresponder à realidade. Para muitos pensadores a intolerância religiosa seria um fenômeno relativamente recente na História. Teria surgido há menos de dois mil anos. Isto porque, segundo esta corrente, na Antiguidade não haveria o termo tolerância, enquanto conceito formal que possui um significado específico. Principalmente em relação à tolerancia religiosa, não havia uma preocupação em termos de se definir ou estudar esta condição por uma simples razão: existia uma convivência relativamente pacífica e harmônica entre todas as formas de se interpretar o infinito. As respectivas escolas e igrejas estruturadas em torno de cada culto, com seus ritos, lendas e parábolas próprias, eram toleradas na prática , sejam elas como fossem. É sabido que na Grécia Clássica, em Roma, nos povos Persas/Medos, entre o Micênicos, no Extremo Oriente, na América pré-colombiana, e em tantos outros, não havia perseguição religiosa a qualquer seita, sob pretexto de que a diferença de credos seria inconciliável ou inaceitável. Interessante observar que esta situação vai contra o senso comum em relação ao Império Romano e os primeiros cristãos. Existe uma concepção de que os romanos, cruéis, intolerantes e autoritários, perseguiam e matavam – muitas vezes jogando aos leões – os cristãos embrionários. Isso não corresponderia à realidade dos fatos, conforme narram diversos pensadores e historiadores, notadamente a partir do século das luzes. Voltaire, por exemplo, em seu antológico “Tratado sobre a Tolerância”, especificamente no capítulo VIII, é leitura obrigatória sempre que nos dispomos a debater ou comentar a questão da tolerância. Sem esta referência em mente, a conversa se mostra estéril e empobrecida. Isto posto, e apenas como um “aperitivo” para a leitura integral que deve se seguir posteriormente, transcrevo abaixo parte desta referência, retirada de uma edição nova que tenho na estante:

“Se os romanos foram Intolerantes”, Capítulo VIII, “Tratado sobre a Tolerância”.

Entre os antigos romanos, desde Rômulo, até os tempos em que os cristãos disputaram com os sacerdotes do império, não encontreis nenhum homem perseguido por suas opiniões. Cícero duvidou de tudo, Lucrécio negou tudo, e não lhes fizeram a menor censura. A licença foi inclusive tão longe que Plínio, o naturalista, começou seu livro negando a Deus e dizendo que há só um: o Sol. Cícero diz, ao falar dos infernos, “non est anus tam excors quae credat”, não há um velho imbecil que acredite neles. Diz Juvenal “nec pueri credunt ( sátira, II, verso 152) : nem as crianças acreditam.Cantava-se no teatro de Roma “post mortem nihil est, ipsaque mors nihil” ( Sêneca, Coro das Troianas, final do ato II) , ou seja, nada há depois da morte, a morte é nada….Concluimos que os romanos eram muito tolerantes, já que estas falas jamais provocaram nenhum murmúrio.

O grande princípio do Senado e do povo romano era: “deorum offensae diis curare”. Significa que compete apenas aos deuses cuidar das ofensas feitas a eles. Este povo-rei não sonhava senão em conquistar, governar e civilizar o universo. Foram nossos legisladores, assim como nossos vencedores. Jamais César, que nos deu grilhões, jogos e leis, quis nos forçar a abandonarmos nossos druidas por ele…..

Os romanos não professavam todos os cultos, não davam a todos a sanção pública, mas permitiram todos. Não tiveram nenhum objeto material de culto sob Numa, nem simulacros, nem estátuas; em seguida ergueram-nas aos deuses “majorum gentios” , que os gregos os fizeram conhecer…Isis teve um templo em Roma…a superstição egípcia erguera um templo em Roma com o consentimento público. Os judeus comerciavam na cidade desde os tempos das Guerras Púnicas; passaram a ter Sinagogas desde Augusto, e as conservaram desde sempre, até a Roma moderna. Há exemplo maior de que a tolerância era vista pelos romanos como a lei mais sagrada do direito dos povos?

Dizem-nos que, tão logos os primeiros cristãos apareceram, foram perseguidos por estes mesmos romanos que não perseguiam ninguém. Parece-nos evidente que este fato é completamente falso. Tomo por prova o próprio São Paulo. Os “Atos dos Apóstolos” nos mostram que , tendo São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a Lei Mosaica em nome de Jesus, São Tiago propos que ele raspasse a cabeça e fosse se purificar no templo com outros quatro judeus. “e saberão todos que não é verdade o que se diz a teu respeito, e que , pelo contrário, guardas a Lei”.

Paulo, cristão, foi então cumprir todas as cerimonias judias durante 7 dias, mas os mesmos 7 dias não tinham ainda transcorridos quando judeus da Ásia o reconheceram ( nota minha, como se diria hoje, “caiu a casa dele” )….e o acusaram de profanação. Paulo foi preso, levado ante o governador Félix, e em seguida ao Tribunal de Festo. Os judeus em coro exigiram sua morte. Festo respondeu: “não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o acusado tenha a presença de seus acusadores e que possa se defender da acusação”. Tais palavras foram notáveis neste Magistrado porque ele não tinha nenhuma consideração por Paulo, sentiu por ele apenas desprezo. E enganado por suas falsas luzes da razão tomou-o como louco. Disse ao próprio Paulo ser ele um insano: “multae te litterae ad insaniam convertunt”. Festo só escutou a equidade da Lei Romana ao dar sua proteção a um desconhecido que não era de sua estima.

Eis o próprio Espíriro Santo a declarar que os romanos não eram perseguidores, e eram justos. Não foram os romanos que se insurgiram contra Paulo. Foram os judeus. São Tiago, irmão de Jesus, foi apedrejado por ordem de um judeu saduceu, e não de um romano. Somente judeus apedrejaram Santo Estevão, e quando São Paulo vestia a capa dos executores, não agia como cidadão romano.

Os primeiros cristãos certamente não tinham questões com os romanos. Tinham como inimigos apenas os judeus, dos quais estavam se separando. Sabemos o ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que abandonam sua seita. Provavelmente houve tumulto nas sinagogas em Roma. Suetônio diz, na “Vida de Cláudio” ( capt XXV): “judaeos, impulsore christo, assidue tumultantes, roma expulit”. Ele se enganara, ao dizer que era por instigação de Cristo; não podia estar a par dos detalhes de um povo tão desprezado como era o judeu, mas não se enganava sobre a ocasião destas querelas. Suetônio escrevia sob o periodo de Adriano, no século II, quando os judeus ainda não se distinguiam dos cristãos aos olhos dos romanos. Esta passagem de Suetônio faz ver que os romanos, longe de oprimir os primeiros cristãos, reprimiam os judeus que perseguiam os cristãos. Os romanos queriam que as Sinagogas de Roma ( os judeus) tivessem para com seus irmãos separados ( os cristãos) a mesma indulgência – tolerância – que o Senado Romano tinha para com os judeus…Nos dizem Dion Cássio e Ulpiano: “será possível que, após a destruição de Jerusalém os imperadores tivessem prodigalizado dignidades aos judeus e perseguido, entregando-os aos carrascos e feras, os cristãos que eram vistos – aos olhos romanos – como mais uma seita dos judeus?

Nero, dizem, os perseguiu. Tácito nos conta que foram acusados do incêndio de Roma e que os entregaram ao furor do povo. Tratava-se, em tal acusação, da crença dos cristãos?Certamente que não….Por mais que queiramos nos enganar, é impossível atribuir à intolerância o desastre acontecido sob o governo de Nero, a alguns semicristãos e semijudeus”.

Fim da parte I do trabalho “ A Tolerância” ( em breve postaremos a parte II)