por Carlos Alberto Carvalho Pires

A Maçonaria é uma religião? Esta é uma das perguntas mais comuns e inquietantes que se apresentam quando pensamos o fenômeno maçônico no contexto da religiosidade humana. Muitos respondem que não, alegando desde resoluções regulamentares a conceitos esotéricos ancestrais para justificar este posicionamento. Outros acham que “a Maçonaria é uma religião no sentido estrito, pois busca a harmonização da criatura com o criador” (CAMINO, 2006).

            Em face desta situação de aparente conflito, e como somos legítimos especuladores da verdade, percebemos que esta questão merece uma atenção diferenciada. A complexidade aqui presente envolve, essencialmente, alguns dos principais valores da Arte Real e nos convida a refletir sobre todos os elementos que interagem neste processo. Este é o objetivo deste breve exercício reflexivo, traçado na peça de arquitetura que se segue. Em suma, estaremos tateando sutilmente o fascinante mundo das relações alquímicas existentes entre a Maçonaria e a fé. 

1-A MAÇONARIA

Desde os ritos primordiais na África paleolítica e muito antes das celebrações dionisíacas da Grécia pré-socrática, quando não havia templos nem obras imponentes para que fossem elaboradas as inquietações mais inebriantes de nossas almas, aprendemos que nossas mentes criativas podem nos levar para muito além do que chamamos cartesianamente de universo lógico. Essas jornadas simbólicas se manifestavam no simples fato de desenhar no solo um círculo ou um pavimento mosaico rudimentar, de acender uma fogueira com a fumaça funcionando como incenso primitivo ou de colocar todos em volta formando um círculo. Dessas pulsões elementares surgiram todas as tradições esotéricas, com nossa Sublime Ordem.

            Definir o que é a Maçonaria, no sentido ontológico ou epistemológico, é indubitavelmente um complexo exercício criativo. Todos que se atém a esta intrigante questão são capazes de manifestar diversas interpretações para explicar este fenômeno social, psicológico e metafísico surgido em tempos imemoriais.

            Assim como os incontáveis mistérios que pavimentam o universo de símbolos e arquétipos mais elementares, a busca pela verdade sobre “o que é” nossa Ordem – como perguntaria Parmênides (530 a 470 a.C.) – escrutina na prancheta do entendimento humano linhas tortuosas que podem confundir as mentes mais argutas.

            Em nossos documentos históricos e regulamentares, elaborados pelos grandes sábios do passado, existem explicações consistentes sobre o conceito de Maçonaria. Mas, isto pode não bastar. Os pensadores mais reflexivos, possuidores de mentes inquietas, sabem que há algo mais. Este teor que vai além do universo tangível é totalmente inacessível a toda forma de especulação e por isso mesmo fascina e assombra nossas almas desde os primórdios. Trata-se da própria espiritualidade humana manifestada por simbolismos complexamente elaborados.

            Buscamos um sentido para nossa Fraternidade de várias maneiras, seja nas metáforas pré-históricas contidas nos rituais estilizados perpetuados nas pinturas rupestres, seja nas tradições da tragédia, do teatro e da filosófica grega clássica, ou nas manifestações de fé nos templos incipientes do crescente fértil. Esta jornada de procura do real conhecimento opera desde o inicio dos tempos e nunca se extinguirá, mesmo depois que desapareça o último homem, ou após o advento do além-do-homem, como diria Nietzsche (1844 a 1900).

2-O CONCEITO DE RELIGIÃO

            Religião é um termo derivado do latim religio, que significa na tradição antiga algo como manifestar um comportamento rígido, formal e pautado pela precisão. Assim era o seu sentido no mundo pré-cristão, notadamente na Grécia e em Roma.

Em 45 d.C., na obra De Natura Deorum, Marco Túlio Cícero (106 a 43 a.C.) considerava o termo religião uma alusão ao ato de reler ou estudar de novo alguma coisa. Explicava, então, que os religiosos eram aqueles que pretendiam uma releitura das escrituras e dos ensinamentos primordiais que trariam luz sobre os fenômenos inexplicáveis.

Agostinho de Hipona (354 a 430 d.C.), ainda no século IV d.C. dizia que a religião seria a vontade de todos de reeleger a Divindade como centro do universo, uma vez que a humanidade se desligou de Deus. No livro A Cidade de Deus considera a palavra religere como sendo a raiz etimológica de religião.

Nos anos 400 d.C. Flavius Macrobius Ambrosius Theodosius, nascido no ano  370, afirmava que religio seria uma forma de se cultuar as relíquias do passado, ou relinquere.

No Hinduísmo não se utiliza o termo religião. Seus sacerdotes, na Antigüidade, usavam a palavra rita. Depois passaram a expressar a idéia de lei divina e perene como Dharma, denominação também comum no Budismo, criado em 500 a.C.

Acredita-se, atualmente, que o vocábulo deriva de duas origens distintas. Relegere se refere à idéia de reler ou revisar os conceitos, tradições, ritos, e princípios antigos adaptando-os às novas eras e necessidades. E Religare seria a vontade de religar algo ou alguém a outros, ou de reunir as pessoas à Divindade.

A partir da hegemonia tradição Judaico-Cristã no Ocidente, religião passou a ser considerada como o conjunto de crenças, rituais, princípios e práticas diversas que buscam exatamente o contato da humanidade com a Divindade. Esta interação seria possível através da chamada revelação, que todos os adeptos consideram como uma realidade concreta.

3-RELIGIÃO E PSICOLOGIA

Adentrando a esfera dos estudos da psique humana, chegamos a uma ponderação mais além. Religião seria uma das maneiras de se explicar todos os mistérios que cercam nossa existência, ou seja, aquilo que a nós é racionalmente incompreensível, de uma forma que possa fazer algum sentido. Esta bagagem inquietante, que foge à compreensão lógica da mente humana, pertence ao campo do Sublime.

Para explicar esta zona de incertezas foram criados os sistemas religiosos primordiais, que utilizam uma variada gama de conceitos dogmáticos baseados na fé. Tais mecanismos impõem uma normatização destes eventos, regrando todos os fenômenos de acordo com as ditas “verdades reveladas”. Estabelecem, assim, a dominação espiritual nesta área inacessível e satisfazem parte de nossa mais profunda angústia, relacionada a necessidade de explicar todos os grandes enigmas.  

4-RELIGIÃO E IGREJA

            Os conceitos de religião e igreja não são sinônimos.

            Religião é uma idéia relativamente nova, criada pelos teóricos do Iluminismo para categorizar uma série de práticas e tradições de fé. Em termos filosóficos, este termo é uma abstração que habita o campo do intangível, o chamado mundo das idéias. Assim, para ser exercido com positividade na sociedade, indo além do exercício pessoal de fé, deve ter um arcabouço que possibilite sua aplicabilidade concreta. Deste modo surge a necessidade da materialização do conjunto ideológico que estrutura uma corrente religiosa, e esta é a definição contemporânea de igreja.

            A palavra igreja vem do grego ekklesia, que significa assembléia, reunião ou associação de pessoas. Pode ser chamada, por extensão, de “comunidade dos escolhidos”. Na pré-história e na Antiguidade representava todas as agremiações que preconizavam formas de transcendência rumo a um plano infinito ou eterno. Com o advento do vocábulo religião, igreja passou a representa os objetos materiais, como prédios, mobiliários, paramentos e a hierarquia administrativa criada para a operacionalidade das normas religiosas. 

As chamadas grandes religiões, estruturadas através das igrejas, foram se expandindo ao longo dos séculos de maneira gradual e consistente. No início a dificuldade de expansão era significativa. Poucos tinham a oportunidade de conhecer formas alternativas de religião. Heródoto de Helicarnasso(485 a 420 a.C.), poderoso historiador grego, foi uma exceção. Descreveu em seu livro Viagens as práticas religiosas dos diversos povos que encontrou em suas peregrinações pelo mundo. Buscava relacionar os deuses que encontrava com os existentes no panteão grego. Xenofonte de Hérquia (430 a 355 a.C.) dizia que cada povo cria sua tradição religiosa de acordo com sua cultura, e que seria raro o ecumenismo.

5-A FÉ CONTEMPORÂNEA

A partir do início do século XX a expansão religiosa foi exponencial. A facilidade de comunicação e de transporte entre todas as comunidades favoreceu o contato de todos às diversas correntes de pensamento. Isto representou uma vantagem em termos de crescimento, mas significou também um risco permanente de evasão dos fiéis. O ecumenismo e o sincretismo religiosos tornaram-se fenômenos rotineiros, e as chamadas “religiões pessoais” ganharam força dentre as opções de fé praticadas pelos cidadãos em geral.

Atualmente existe uma marcante diversidade filosófica e de crenças por todo mundo, gerando uma permanente concorrência e interação entre todas as instituições religiosas. Podemos dividir a distribuição das religiões de acordo com critérios geopolíticos. Assim, temos as do Oriente Médio (Judaísmo, Cristianismo, Islã, Zoroastrismo e Bahal), do Extremo Oriente (Confucionismo, Taoísmo, Budismo, Mahayama e Xintoísmo), da Índia (Hinduísmo, Jainismo, Budismo e Sick), da África, da Oceania, da América pré-colombiana e da Antigüidade clássica Greco-Romana. As três grandes religiões monoteístas somadas possuem mais de um terço da humanidade sob seus domínios (dois bilhões de cristãos, 1,3 bilhões de islâmicos e 15 milhões de judeus).  Interessante observar que cerca de um bilhão de pessoas se declaram sem religião. Neste grupo incluem-se os agnósticos e ateus.

6-O SAGRADO

Ao realizarmos uma reflexão filosófica sobre nossa percepção da realidade fica claro que podemos nos situar em duas realidades paralelas. Existe o mundo tangível ou real, marcado pelas ações rotineiras e pelas atribulações da vida pessoal transcorrida em sociedade. Ali todos caminham de maneira uniforme e inexorável rumo ao seu destino final, após experimentarem uma breve jornada controlada pelo que chamamos de “tempo”. Neste caso nos referimos ao chamado tempo homogêneo, mais conhecido como profano e que é marcado pela submissão inexorável às forças da natureza. O tempo aqui seja astronômico, biológico ou físico, não para. Sentimos seus efeitos em nós mesmos e em muitas entidades que nos cercam – como em troncos de madeira que se deterioram, à semelhança da decaída de nosso vigor físico e mental com o avançar da idade.

Apesar de não compreendermos absolutamente nada sobre esta poderosa energia temporal que atravessa nossos corpos e interage com tudo, sabemos perfeitamente como se apresentam seus efeitos. Disso surge um terrível desejo de controlá-la, adequando-a a calendários ou relógios que no máximo nos mostram com mais clareza como sua passagem segue inabalável.

Exatamente desta necessidade de dominarmos estas forças profanas foi criada pela mente de grandes pensadores do passado uma segunda realidade ou um novo universo, distinto e apartado do profano. Neste plano, o tempo, agora tido como heterogêneo, não passa. Tudo ali tem existência plena e perenidade absoluta, tal qual uma pedra bruta ou polida – que aparentemente não sofre a ação da passagem das eras. Nada se transforma e muito menos sofre processos degenerativos ou escatológicos.

Este tempo separado do comum é denominado Sanctum, Sacrum ou Kadosh – nas três principais línguas da tradição esotérica – ou simplesmente sagrado, e se manifesta em locais muito especiais, chamados de espaços consagrados. Nestes sítios as diversas vertentes da espiritualidade humana desenvolvem seus rituais e sua liturgia e repassam a sabedoria mais antiga aos novos iniciados.

Tanto nos templos erigidos às tradições iniciáticas mais elementares quanto naqueles voltados aos trabalhos de fé, o que opera a plena força e vigor é o tempo sagrado, onde a espiritualidade reina soberana.

7-CONCLUSÃO

Toda forma de transcendência espiritualizada se refere a conceitos universais, presentes em todas as eras e em todos os povos. Referem-se a um estado de espírito, e fornecem uma postura reflexiva sobre tudo que existe.

Se pensarmos em religião como representações das estruturas tangíveis criadas em tempos mais recentes para os trabalhos de fé, certamente poucos elementos podem ser considerados comuns em relação à essência das ordens iniciáticas.

Mas, se considerarmos que todas as religiões são derivadas de um tronco ancestral único, sob o ponto de vista dos conceitos elementares, e que deste eixo simbólico também aflorou nossa Sublime Ordem, nossa resposta pode ser diametralmente outra. Religião e Maçonaria seriam mais que idéias similares.

De qualquer modo, responder simplesmente sim ou não a pergunta-título deste trabalho reduz sobremaneira o universo de sentidos relacionado a toda esta questão. O que realmente importa é garantirmos que as práticas religiosas ou ritualísticas, que fortalecem nossas almas na inexorável jornada pelos labirintos da existência, continuem sendo respeitadas e tenham sua magia preservada até o fim dos dias.

REFERêNCIAS:

 

CAMINO, Rizzardo da, “Dicionário Maçônico”, Editora Madras, 2006;

 

CAMPBELL, J. “Mitologias Primitivas”, 7ª Edição, Editora Palas Athena, 2005;

 

GLESP, “Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom” Editora Glesp, 2003;

JUNG, C.G. “Psicologia e Alquimia”, 2ª Edição, Editora Vozes , 1994;

ELIADE, Mircea, “O Sagrado e o Profano”, 1ª Edição, Editora Martins Fontes, 1992;

PIRES, Carlos A C, “Origens – Em Busca do Primeiro Maçom” Revista Maçônica “A Verdade”, Editora Glesp, Edição 461, Julho Agosto 2007;

Internet: www.maconariabrasil.wordpress.com, acessado em 20/02/2010.

Carlos Alberto Carvalho PireS

cacpires@gmail.com

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