QUE VINDES FAZER AQUI?

 BREVE REFLEXÃO SOBRE O SIMBOLISMO MAÇÔNICO

            Para compreendermos, em parte, o sentido de nossos trabalhos em Loja é preciso responder à emblemática pergunta: “que vindes fazer aqui?”

            A resposta a esta questão, que traz em seu bojo o significado de muitos signos existentes nos templos simbólicos, nos remete a uma estupenda e poderosa jornada em que o tempo e o espaço se desestruturam.

            Tal qual ocorria com os mitológicos viajantes que seguiam rumo ao Oriente na Antiguidade, o iniciado começa sua jornada vendado e busca a luz da sabedoria – esta metáfora representa o desejo de conhecer como a tradição maçônica interpreta a realidade que envolve o homem e o universo.

            Nesta breve peça de Arquitetura realizaremos uma meditação sobre alguns elementos simbólicos dos trabalhos em Loja, através da qual será possível compreender o significado da poderosa questão proposta.

POR QUE SER INICIADO?

            Após ser iniciado o candidato passa a ter acesso ao universo simbólico maçônico. O neófito vai participar ativamente de um exercício psicológico que envolve o desenvolvimento de uma pequena jornada heróica em que algumas tradições muito antigas são resgatadas. Esta aventura se repete a cada Sessão ritualística.

            Infelizmente, tais conceitos estão se perdendo nesta época pós-moderna. Isto ocorre pela falta de interesse da maioria das pessoas em compreender o que representam estas figuras tão complexas, criadas pela nossa mente inquieta. Entender a complexidade dos elementos simbólicos é tarefa penosa. Requer muito tempo livre e dedicação. Na correria do dia a dia, nos tempos da comunicação de massa, das altas tecnologias digitais, é raro encontrar uma pessoa que deseja sinceramente buscar o sentido dessas metáforas que remontam, muitas vezes, a milhares de anos de aprendizado, acumulado ao longo de infindáveis gerações. 

            Quem deseja ser maçom deve estar disposto a dedicar uma pequena parte de sua vida aos assuntos da Arte Real. Isso extrapola as curtas duas horas que passamos entre colunas, uma vez por semana. É preciso ir mais adiante, buscando nas fontes justas os ensinamentos que complementam o que se vivencia nas poderosas liturgias elaboradas em nossos templos.

A ORIGEM DOS RITOS INICIÁTICOS

            Nos primórdios, antes que os primeiros Homo sapiens surgissem no horizonte da evolução, havia uma aparente paz de espírito entre os hominídeos e a natureza. Estava em gestação o que seria chamado de “estado natural”, por Hobbes, Locke e Rousseau – estes três grandes filósofos, cujo pensamento floresceu na modernidade insipiente, não por acaso brilharam exatamente no contexto da fundação da primeira potência maçônica regular.  Na África indomada não havia como compreender e muito menos existia a pretensão de dominar os fenômenos naturais, que ditavam o destino de todos. A submissão às forças imprevisíveis e poderosas do caos era um fato inexorável na vida dos seres e das coisas. 

            Em um determinado momento, porém, houve um tremendo avanço biofisiológico nos cérebros dos hominídeos, refletido em um poderoso ganho em volume deste órgão.  Repentinamente a chamada mente criativa começava a operar a plena força e vigor. A causa deste upgrade até hoje é um indecifrável mistério. O que importa é que a partir disso os pensadores recém surgidos começaram a questionar os grandes fenômenos naturais. A filosofia embrionária começava a encenar as primeiras tragédias nas arenas psicológicas dos homens.

            Rapidamente, em um estupendo exercício criativo, os magos antigos interpretaram e dividiram a realidade em duas perspectivas. Uma representa tudo que captamos com nossos cinco sentidos, e o outro tudo aquilo que foge a esta condição. Esta realidade paralela, imperceptível ao nosso consciente, estaria operando na penumbra, como um universo oculto, determinando nossos destinos. Quem comanda este plano, é mais um mistério.  Os gregos antigos mencionavam que seriam as moiras, as três senhoras mágicas que teciam o fio da vida de todos, inclusive dos deuses. Para outros seria uma substância indescritível.  Os mistérios e os enigmas inexplicáveis ali estariam, em pé e a ordem, inacessíveis a qualquer forma de experimentação empírica ou compreensão racional.

            A beira do completo caos psíquico que estas angústias traziam, surgiu a redenção. Um determinado membro do grupo, dotado de carisma profético, assumiu seu bios político bradando que podia explicar os mistérios ocultos. Este sábio, mago, druida ou sacerdote afirmava entender o conjunto de idéias desconexas que fogem à compreensão racional. Para dar sentido a estes pensamentos inquietantes seria preciso regrá-los, enquadrando-os em procedimentos ritualísticos elaborados.

OS CULTOS INICIÁTICOS PRIMORDIAIS

            Os rituais primordiais ocorriam em cavernas profundas, à luz de tochas. O xamã fazia pinturas artísticas nas paredes, reproduzindo pictogramas. Só participavam dos trabalhos aqueles que eram convidados, pois nem todos apresentavam as mínimas qualificações espirituais para compreender esta visão expandida da realidade. Surgiam as chamadas “comunidades dos escolhidos”- ekklesia em grego. Os sábios perceberam que para decifrar um mistério era preciso vivenciá-lo: tinham que encarar o poder de frente e vencê-lo, voltando ilesos das jornadas cheias de riscos a que se arriscavam. A forma de elaborar estas angústias, sem submeter os voluntários a riscos reais, seria interpretá-las através de narrativas simbólicas.
            Para definir a essência dos temas mitológicos consideraram a existência de certas idéias que operavam em aparente antagonismo, mas que mantinham estreita conexão de sentidos. Estabelecendo uma relação dialética, dois conceitos – tese e antítese – acabavam se assimilando em um terceiro, que incorporava elementos das duas proposições anteriores. Como exemplo destes sistemas podemos citar o dia e a noite, a vida e a morte, o finito e o infinito, o micro e o macrocosmo, o inconsciente e o consciente, o sol e a lua e muitos outros.

O MUNDO DUALÍSTICO

            Muitas vertentes esotéricas levaram em conta a dualidade referente às  estações do ano para a construção das narrativas. Sabemos que existem duas fases distintas a cada giro da Terra em volta do Sol. A primeira seria voltada ao reinado da vida, da luz, do calor e da abundância, que engloba a primavera e o verão. A segunda se refere às estações onde impera o frio, a fome, as doenças, o medo, e a morte – falamos do outono e do inverno. Os equinócios são as datas principais que representam estes períodos, pois  são aquelas em que o meio-dia ou a metade do dia equivale exatamente a meia-noite.

            A vida vegetal, que floresce nas épocas de Sol e decai nos meses de trevas, brota do ventre da Terra assim como os animais nascem do ventre de suas mães. A Terra, assim, assumia o epíteto de Mãe-Terra ou Deusa. Os cultos primordiais eram dedicados a esta figura poderosa, com forte ligação às coisas da natureza. Repletas de signos relativos à fertilidade, estas ordens tinham como obreiras apenas sacerdotisas. Destacam-se os cultos à Isis, à Innana, à Hera, à Ceres, à poderosa deusa Atenas Nike e à Minerva.

            O principio fertilizador, necessário ao advento da vida, era o Sol. Isso porque quando ele se afasta, a vida fraqueja. No inverno o astro praticamente morre. Seu óbito ocorre metaforicamente no solstício de inverno, em 21 de dezembro. E quando o Sol “falece”, deixa viúva a Mãe-Terra. Restam apenas no deserto gelado alguns troncos perenes, os “troncos-da-viúva”, e raras folhagens que resistem às intempéries, como as acácias.

            Outros grupos resolveram não adotar o conceito ontológico da Mãe-Terra. As narrativas aqui deviam representar uma jornada do iniciado em que o mesmo vai transcender o reino telúrico e chegar, triunfante, aos planos superiores aonde os mistérios do infinito, de tudo aquilo que vai além do universo tangível, podem ser acessados. Criaram-se os mitos solares. O Sol passava a ser o protagonista das narrativas. Nestes procedimentos, o herói tem um nascimento tumultuado. Depois passa por terríveis provações, geralmente sendo ameaçado de morte por algum poder instaurado,  e muitas  vezes é lançado em rios, simbolizando um batismo na água. Após uma juventude misteriosa, tem um momento de “iluminação”, quando ouve um chamado. E parte para uma missão de resgate glorioso de algum grande valor moral ou espiritual, que pode ser uma palavra perdida por exemplo. O objetivo final é salvar a comunidade ou mesmo a humanidade de um suposto “grande mal”.

A ETERNA BUSCA

            Na viagem sempre presente nestas liturgias o iniciado vai resgatar algo que era legitimamente seu, mas que foi usurpado por uma força injusta. Repleta de perigos, esta epopéia geralmente leva os bravos aos confins do oriente. Lá está o objeto de redenção, que se desdobra em várias figuras arquetípicas, como o cálice sagrado, a pedra filosofal e a palavra perdida. Depois de achar o que procurava, e derrotar o maior dos adversários – um ente que representa as forças primitivas e elementares da natureza – o conquistador retorna são e salvo ao seu grupo, fortalecido e equilibrado.

            A viagem heróica é uma metáfora do processo de individuação. Representa a busca pela identidade que todos devem empreender para atingir a maturidade. O homem tem que conhecer o papel individual que lhe foi reservado, e que vai marcar sua fugaz passagem pela vida. Esta sabedoria só é possível através do autoconhecimento, fenômeno acessível apenas àqueles que adentram aos mais profundos labirintos de nosso subconsciente.

            O iniciado, após completar o ciclo da Loja base, entende que uma mera caminhada pela oficina em torno dos altares é fonte de complexos simbolismos. Começa pela Coluna da Força, quando é impulsionados pelo animus, associado à coragem e perseverança. Depois sobe os quatro degraus do Oriente, sendo iluminado pela gnose ancestral, na Coluna da Sabedoria. Em seguida, enriquecidos por esta magia, desce pela Coluna da Beleza. Ali passa sob a égide da Estrela Flamejante, representando o “homem perfeito”, aquele que sofreu as maiores provações e se individualizou.

            Toda experiência maçônica nada mais é do que uma complexa e elaborada jornada psíquica: trafegamos do mundo consciente, simbolizado pelo Ocidente, aos planos mais profundos do inconsciente, representado pelo Oriente. Os trabalhos ritualísticos traduzem a busca atemporal por aquilo que foi perdido em tempos imemoriais. A falta deste objeto intangível nos torna seres incompletos e eternamente angustiados em nossa subjetividade.

CONCLUSÃO – “QUE VINDES FAZER AQUI?     

          A Maçonaria representa uma poderosa guardiã das mais sagradas tradições criadas por uma série de civilizações que floresceram e pereceram com o passar das eras. Os povos passam, a Arte Real persiste. Isto porque os princípios ancestrais que defendemos vão muito além das infindáveis experiências culturais, sociais, religiosas ou artísticas arquitetadas pela humanidade.

            A resposta à pergunta que gerou este trabalho pode se resumir a buscar a compreensão do sentido do simbolismo maçônico, fato que também diferencia os iniciados dos profanos. Este é o único caminho para que nossa Sublime Ordem continue acompanhando a maravilhosa evolução humana, como tem feito desde o principio dos tempos.

CARLOS ALBERTO CARVALHO PIRES

A.R.L.S. Acácia de Jaú 308 – cacpires@gmail.com

Referências:

1-CAMPBELL, J.. “Mitologias Primitivas”, 7ª Edição, São Paulo: Editora Palas Athena, 2005.

2-GLESP, “Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom”, São Paulo: Editora Glesp, 2.001.

3-MACDOWELL, J Saber Filosófico, História e Transcendência”, Rio de Janeiro: Ed.Loyola, 2.002.

4-JUNG, C.G. “Psicologia e Alquimia”, 2ª Edição, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1994.

5-PIRES, C.A.C., “Origens – em busca do primeiro maçom”, rev maçônica “A Verdade”, São Paulo: Glesp, Ano LV, edição No 461, julho/agosto 2007

6-PIRES,  C.A.C. “O Simbolismo Maçônico em Stonehenge”, disponível em www.freemasons.freemasonry.com, acesso em 30/04/2010.