O SIMBOLISMO MAÇÔNICO E O MITO DE PROMETEU

por CARLOS ALBERTO CARVALHO PIRES

          A Grécia Clássica é indubitavelmente o berço da civilização ocidental. Ali identificamos com clareza a eclosão das bases do pensamento humano que criou a forma de se entender o sentido do universo. A origem do que chamamos de conhecimento ou Sophia se entrelaça à tragédia, à mitologia e à filosofia gregas. Como os antigos mistérios elaborados pelas tradições iniciáticas acompanham a trajetória humana desde que os primórdios, é de se esperar que também estejam presentes nas narrativas mitológicas ancestrais. Ao analisarmos a saga de Prometeu, assim como as argumentações de Platão sobre o tema, percebemos que tal obra poderia ter sido escrita como parte de um tempo de estudos, apresentado em Loja Simbólica . Na ordem do dia, entre Colunas, se apresentariam Ésquilo, Hesíodo e Platão, sendo ouvintes todos aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre o significado e as origens de nossa Sublime Ordem. Rever esta mitologia, analisando brevemente seus pontos em comum com a Arte Real, é o objetivo desta peça de arquitetura. 

1-A Mitologia de Prometeu, segundo Hesíodo e Ésquilo

            A poderosa narrativa de Prometeu foi descrita por três grandes representantes da filosofia grega clássica. Inicialmente aparece nos relatos de Hesíodo (Ascra, século VII a.C.), chamados “Teogonia” e “Os trabalhos e os dias”. Em seguida integra a arte de Ésquilo (Elêusis, 525 a.C e Atenas, 456 a.C.), na emblemática tragédia “Prometeu acorrentado”. Por último, nosso herói ilustra o diálogo Protágoras, de Platão (427 a 347 a.C.), que trata das relações entre a filosofia e a retórica.

            O nome Prometeu pode ser uma conjunção de vocábulos do grego arcaico que significam “o prudente” ou “o vidente”. Pró equivale a antes e manthanéin pode se traduzir por saber, sabedoria ou visão. Isto denota que ele apresentava o poder de predizer os fatos, tal qual um oráculo. Era filho do titã Jápeto e de Clímene, de acordo com Hesíodo. Ésquilo considera Têmis como sendo sua mãe. Possuía alguns irmãos, como Atlas, Menécio e Epimeteu.  Cronos, pai de Zeus, era irmão de Jápeto. Portanto, Zeus era primo de Prometeu. Zeus tinha como irmãos Posêidon, que se tornaria o rei dos mares, e Hades, que governaria o mundo subterrâneo ou dos mortos. Zeus, como se fosse o primogênito, ficou com o comando do mundo celestial. Era o mais venerado e poderoso deus da Grécia – seu templo em Atenas era grandioso, com 104 colunas coríntias de 17 metros de altura, com uma gigantesca estátua do deus em marfim e ouro.                                                                                       

            O primeiro episódio protagonizado por nossos personagens ocorreu quando Prometeu resolveu presentear Zeus e os homens. Cada um receberia metade de um boi, sendo que em uma parte ele colocou apenas ossos sob a banha do animal, e na outra as vísceras – mais valiosas – cobertas pela pele. Zeus escolheu o monte com a banha, e foi enganado. Com muita fúria, Zeus aceitou a opção, mas como castigo tomou o fogo dos homens.

            O fogo simbolicamente representa a sabedoria. Os gregos tinham uma verdadeira obsessão pela busca da chamada verdade ou pelo conhecimento. Isso fica claro quando analisamos um culto muito famoso naquela época. A deusa da sabedoria, da inteligência, do ofício e da guerra justa era Atena Nike, uma virgem cuja veneração perdurou por mais de quinhentos anos. Seu templo, o Pártenon, surgia como o mais vistoso de todos. Localizado no centro da Acrópole de Atenas, seu nome significa algo como virginal ou casto. Era um imenso monumento simbólico onde as multidões veneravam a deusa-virgem pedindo a maior das dádivas: sabedoria frente às grandes questões da vida.

            Prometeu não se conformou com a perda do fogo, pela humanidade.  Aproveitando um momento de distração dos deuses, roubou este elemento e o entregou  novamente aos homens. A partir daí a habilidade de construir casas de madeira e tijolos, e o domínio da escrita, da astronomia e da matemática passavam a ser acessíveis aos mortais, assim como a possibilidade de dominar os animais domésticos, de cultivar plantações e de criar objetos de arte.

            Em represália, Zeus armou uma terrível vingança. Mandou Hefesto, o habilidoso deus ferreiro, construir uma mulher maravilhosa, com todos os atributos que os deuses poderiam lhe fornecer. Foi chamada de Pandora, ou aquela que tem todos os atributos – pan significa “todos” e dora são “dons”.  Afrodite a presenteou com as armas da sedução. Hermes com os poderes do convencimento. Atena ensinou-a como tecelar, e muitos outros imortais colaboraram na finalização deste artefato fascinante. Depois, ela foi presenteada a Epimeteu que imediatamente ficou apaixonado, e propôs casamento à jovem. Uma pequena caixa foi presenteada à Pandora por Zeus, em homenagem ao casamento. Era um baú ou cofre reduzido. O irmão do noivo, Prometeu, com sua visão profética, veio desesperadamente avisá-lo para tomar cuidado e não se casar, pois tudo aquilo possivelmente era um objeto de vingança. Mas não adiantou. Na noite de núpcias o presente de Zeus se abriu e tudo que estava dentro escapou. A chamada caixa de Pandora continha as mazelas, as desgraças, as aflições e todas as formas de maldade e azar  podem acometer a humanidade, e agora tais entes estavam livres para atacar as almas das pessoas em geral. A vingança de Zeus havia triunfado. Pandora fechou rapidamente a caixa, mas não evitou que todas as perversidades saíssem. Este gesto impediu que um último elemento escapasse: a esperança.

            Em relação a Prometeu, Zeus foi mais impiedoso. Ordenou que Hefesto o acorrentasse no monte Tártaro, perto dos portais do Hades. Ali, perante o céu infinito, ele sofreria o ataque diário de uma águia gigante, que vinha e devorava seu fígado. A noite este órgão se regenerava, para ser novamente destruído pela ave no dia seguinte. Isto deveria perdurar por toda eternidade, mas depois de muito tempo Héracles, também conhecido como Hércules, matou a águia e libertou Prometeu de suas algemas.

2-O Mito de Prometeu na visão de Platão

            Platão foi contemporâneo de Ésquilo. Costumava freqüentar a Agora de Atenas, o espaço de estudos e reflexões central da cidade, onde Sócrates exercia seu famoso método dialético. Platão era um aprendiz de Sócrates. Posteriormente fundou sua própria escola, o Liceu. Como Sócrates nada escrevia, apenas pela obra de Platão os ensinamentos do velho mestre chegaram até nós.

            Na visão mais filosófica da tragédia de Prometeu, Platão nos apresenta um emblemático diálogo entre grandes personalidades de Atenas tendo tal mitologia como fonte de argumentação. Na obra intitulada Protágoras, Platão narra o debate entre Sócrates e Protágoras, eminente sofista que defendia o poder da retórica como instrumento de sabedoria.

            Platão começa afirmando que todos os seres vivos e os homens foram criados por uma centelha divina que atuava na própria terra.  A palavra homem, por exemplo, derivaria de húmus ou terra. No princípio dos tempos, antes que os entes mortais fossem criados, os deuses teriam dado aos irmãos Epimeteu e Prometeu o trabalho de fornecer qualificações ou poderes a todos os seres vivos. Isto seria necessário para que pudessem sobreviver no mundo entre as feras e os elementos da natureza. Epimeteu, então, foi distribuindo atributos aos animais, tal como o poder de voar, de usar garras, de possuir grande força física, muita velocidade ou capacidade de nadar, e assim por diante. Quando chegou a vez de criar a espécie humana, Epimeteu se conscientizou de que nada havia sobrado em termos de qualidades. O homem estaria fadado a sucumbir, perante os outros seres já aquinhoados com grandes poderes. Mas, Prometeu achou a solução para salvar seus protegidos: roubou o fogo sagrado do deus ferreiro Hefesto e a sabedoria de Atena e entregou tudo aos homens. Portanto, desde sua origem estes já tinham o domínio do fogo e a sabedoria para trabalhar com ele, o que possibilitou a construção de casas, a confecção de roupas e a produção de alimentos.

            O problema dos homens surgia quando se reuniam em comunidades maiores. O caos imperava e a autodestruição era uma certeza. Na visão de Platão, o que faltava aos homens era a habilidade política de se organizar em sociedade. Este poder estava nas mãos de Zeus, que não o fornecia – e nem era possível a Prometeu buscá-lo na Acrópole de Zeus, pois esta fortaleza era intransponível ao deus vidente. Depois de muito tempo, porém, Zeus ficou preocupado com a inexorável extinção da espécie humana e mandou Hermes levar ao mundo o dom da justiça e do pudor, distribuindo-os igualmente entre todos os seres humanos. Assim, seria possível manter a unidade das sociedades humanas embrionárias.

            Platão associa a arte política à ética. Não seria possível, em sua visão, exercer um papel público ou político sem observar a mais rigorosa ética.  O termo ética é derivado de ethos, vocábulo grego ou latim que se refere às tradições, aos costumes , ou ao próprio corpo humano – neste caso, podemos considerar como uma forma de respeitar a pessoa em si. A ética era um atributo a ser exercido pelos homens de Atenas, de forma precisa e justa. Esta excelência era traduzida por virtu, de onde vem a virtude, ou a arte de fazer com excelência qualquer procedimento.

           Como exemplos de categorias de virtude, Platão cita a sabedoria, a temperança, a coragem, a justiça, e a santidade. Para sintetizar, acha que virtude, em uma palavra, seria o conhecimento. Para ele a virtude é una, e a partir dela surgem, secundariamente, as outras características. A virtude para ser útil deve ser exercida com a razão, assim como a coragem sem raciocínio não passaria de imprudência, e a temperança sem muita reflexão deve ser evitada. Seria possível um homem tornar-se virtuoso, mas manter-se na virtude é coisa apenas para os deuses. Ele enaltece a prática da razão, em detrimento do logos ou do discurso.

3- Prometeu entre Colunas

            Prometeu representa o espírito indômito dos verdadeiros protagonistas dos rituais iniciáticos. Como todo aprendiz, deve trabalhar em prol da evolução da sociedade humana. No caso em questão, isto significava trazer o progresso sob a forma da entrega do fogo aos homens. O domínio do fogo pode ser considerado o maior passo da humanidade em sua jornada de distanciamento, enquanto espécie, dos outros primatas. Muito mais que o advento da roda ou da agricultura, a arte de trabalhar com as labaredas possibilitou a nossos ancestrais extrapolar com segurança os limites das cavernas úmidas e escuras da África central. Ganhando mais espaço, agora a céu aberto, e mais tempo, pois a noite agora era aproveitada como um momento mágico de meditação em torno das fogueiras, esta conquista representou um tremendo incremento na arte da meditação ritualística.

            O mito também nos lembra que o ganho em sabedoria é acompanhado, inexoravelmente, por um sofrimento, um custo ou ônus a ser debitado àquele que sai das trevas. Quanto mais se sabe, mais complexos se tornam os enigmas da vida e da natureza. Outros problemas ou questionamentos vão se apresentando conforme evoluímos pela chamada asceze intelectual, e isto passa a incomodar as mentes que ficam mais inquietas e perplexas, frente às novas perspectivas que se descobrem.

            A virtude, apesar de que no contexto grego este termo tinha um sentido um tanto distinto do atual, é uma das mais importantes qualificações de Prometeu. Ele cumpre com retidão e perfeição sua missão de apoiar os homens em sua jornada evolutiva, e também traz um grande bem à humanidade.

            A prudência surge no mito, de maneira enfática e marcante, no momento em que Prometeu se mostra preocupado com o enlace de seu irmão com Pandora. Sua inquietação se agrava com o envio do presente de Zeus, a caixa enigmática. Sabemos que devemos guardar a mais coerente prudência em todas as nossas.

            A ética é tratada por Platão, já como desdobramento da epopéia de Prometeu, como elemento indispensável para o correto exercício da arte política. Não havia possibilidade de existir um ser político que não pautasse suas condutas pela perspectiva do  bem comum, ou pela luta pela construção de uma sociedade mais justa e harmônica. Infelizmente, tal conceito entrou em cheque com o surgimento dos estados absolutistas, quando houve uma quase total separação entre estes dois conceitos – a ética e a política.  A realidade desta nova época foi muito bem analisada e registrada pelo italiano Nicolau Machiavelli, no século XVI, em sua obra “O Príncipe”. Apesar dessa situação em que os fins justificam os meio e na qual os lideres político só visam sua perpetuação no poder, existem entidades que lutam pelo restabelecimento da antiga tradição, na qual a ética era a régua que orientava as posturas dos governantes

6- Conclusão

          A Mitologia grega apresenta, de maneira dramática e estilizada, uma forma de codificação simbólica dos maiores enigmas que cercam a existência humana. Irrompendo a partir dos mais intrincados labirintos da história, tais mitos refletem a maneira como nossa mente criativa elabora a realidade e seus mistérios. Por isso, para os legítimos idealistas que trabalham do meio dia a meia noite em busca da construção de um mundo mais justo, é essencial conhecer estas maravilhosas narrativas se desejam decifrar o principal objeto de sua arte: o ser humano, com toda sua complexidade psíquica e existencial.

Carlos Alberto Carvalho Pires

cacpires@gmail.com

REFERÊNCIAS

DUCLOS, M. O Mito de Prometeu e Epimeteu, disponível em http://www.consciencia.org, acesso em 15/05/2010.

ÉSQUILO, Prometeu acorrentado/Ajax/Alceste, tradução de Kury, M.D. São Paulo: editora Jorge Zahar, 1ª Edição, 2004.

GLESP, Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom, São Paulo: Editora da Glesp, 2001.

MACHIAVELLI, N.B. O Príncipe, tradução de Gonçalves, O.L. Goiânia: Editora Cultura e Qualidade, 1998.

PLATÃO, Protágoras, ed. E-Booked, disponível em http://www.dominiopublico.com.br , acesso em 15/05/2010.

PIRES, C.A.C., “Origens – Em Busca do Primeiro Maçom” Revista Maçônica “A Verdade”, Editada pela Glesp, Edição 461, Julho Agosto 2007.